Post Page Ads

Post Page Top Ads

CRÍTICA: COPAN

Crítica by Raphael Ritchie: ¨Milhares de pessoas dividindo o mesmo edifício, tentando conviver sob regras comuns, enquanto um síndico se mantém no poder há décadas em meio a uma eleição presidencial tomada pela polarização.



A situação por si só já carrega uma força simbólica enorme, ainda mais dentro do Copan, um dos espaços mais emblemáticos de São Paulo, atravessado diariamente por conflitos sociais, diferenças econômicas e disputas de convivência que naturalmente evocam um retrato do próprio país naquele momento.

A aproximação entre a eleição interna do condomínio e o cenário político nacional possui um ponto de partida realmente interessante, principalmente porque o documentário registra aquele período específico em que o Brasil parecia permanentemente tensionado por discursos políticos, ressentimentos e divisões ideológicas.




Existe um material humano muito rico circulando pelos corredores, elevadores e assembleias do prédio, mas o filme nunca consegue transformar essa matéria bruta em algo dramaticamente consistente.

A câmera adota uma observação distante e prolongada, insistindo em planos longos que frequentemente parecem apenas esticar situações sem acrescentar densidade ao que está sendo discutido.

As reuniões registradas pelo Zoom, as conversas dispersas e os pequenos conflitos cotidianos surgem de maneira fragmentada demais, sem desenvolvimento suficiente para criar envolvimento real com aqueles moradores ou com a própria disputa política em torno da administração do prédio.



E isso vai tornando tudo frustrantemente superficial, porque as ideias mais interessantes aparecem apenas insinuadas. Autoritarismo, permanência de poder, convivência coletiva, desgaste democrático e polarização são temas constantemente sugeridos, mas raramente aprofundados de fato.

O documentário parece acreditar que registrar pessoas debatendo política dentro de um espaço coletivo já bastaria para produzir reflexão, quando na verdade falta organização narrativa, tensão e principalmente uma construção mais sólida sobre o significado daquele ambiente.

O próprio peso simbólico do Copan acaba ficando subaproveitado, reduzido a um cenário de observações dispersas que nunca encontram um eixo dramático forte o suficiente para sustentar o longa.



O resultado é um filme parado, excessivamente diluído e muito menor do que o potencial do tema que tinha nas mãos¨.

Vencedor do É Tudo Verdade, o maior festival de documentários do país, na categoria de Melhor Filme Brasileiro, o longa foi também o único representante latino-americano na competição oficial do CPH:DOX 2025, um dos principais festivais do gênero no mundo.

Nas palavras da diretora, “COPAN é uma profunda jornada observacional que se desenvolve em narrativa intimista.

Enquanto as engrenagens da vida cotidiana se movem no que vemos, o som nos lembra que dentro de cada indivíduo pulsa um mundo de sensações e pensamentos. E o edifício se revela, ele mesmo, uma entidade viva”.

COPAN é o trabalho de pessoas que conhecem o prédio a fundo. Wallauer, por exemplo, viveu no edifício durante sete anos, experiência esta que permitiu à diretora acesso privilegiado aos bastidores e às pessoas que circulam no prédio todos os dias.

A produtora Viviane Mendonça, assim como o DJ KL Jay (o lendário DJ do Racionais MC’s), responsável pela trilha sonora ao lado dos filhos DJ Will e DJ Kalfani, também moram no edifício há anos.

Concebido por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1966, no coração da Avenida Ipiranga, o Copan é o maior condomínio residencial da América Latina e funciona, no filme, como um microcosmo do Brasil contemporâneo. Mas, se o edifício se impõe como símbolo, são seus bastidores que interessam ao filme.

Ao privilegiar o cotidiano dos cerca de 104 funcionários responsáveis por manter o edifício em funcionamento, o documentário desloca o olhar tradicionalmente voltado aos moradores e propõe outra chave de leitura: são essas rotinas, muitas vezes invisíveis, que sustentam e revelam a vida em comum no prédio.

COPAN chega aos cinemas em um momento político próximo àquele registrado pelas câmeras ao longo dos anos de filmagem: um período em que, como o atual, um Brasil polarizado politicamente voltava às urnas para decidir quem comandaria o país nos anos seguintes.

Uma rachadura que reverberava, como hoje, nos mais diversos níveis de relações sociais, inclusive, dentro do próprio edifício, que também atravessava uma eleição acirrada para a escolha do síndico. Um reflexo que ainda se mostra muito atual diante da fragilidade democrática que se mantém no país.

No meio desse processo surge uma das figuras mais fundamentais e controversas da história do Copan, Affonso Celso Prazeres de Oliveira, que comandou o prédio com mão firme por mais de três décadas, e faleceu recentemente, em dezembro de 2025, aos 86 anos.

Ao acompanhar o cotidiano do edifício, com seus 32 andares, 1.160 apartamentos e mais de 70 estabelecimentos comerciais, o documentário revela as tensões, negociações e formas de convivência que atravessam esse espaço coletivo.

Mudanças recentes, como o avanço das locações de curta duração por plataformas como Airbnb, intensificam conflitos e ajudam a evidenciar transformações que representam — e ultrapassam os limites do prédio, como a crise da moradia, a especulação imobiliária e a gentrificação no Centro de São Paulo.

SINOPSE
No coração de São Paulo, ergue-se um gigante de concreto. O edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, abriga mais de cinco mil moradores e se torna palco de uma eleição acirrada.

O síndico, há 30 anos no cargo, luta para manter sua posição, enquanto uma disputa ainda maior se desenrola fora das paredes do edifício, com Lula e Jair Bolsonaro disputando a presidência do Brasil. Dirigido por Carine Wallauer, Copan é um retrato do Brasil contemporâneo e das engrenagens do poder, entrelaçando realismo social e sci-fi em um dos prédios mais emblemáticos do país.

A DIRETORA
A produção artística de Carine Wallauer transita entre a técnica e a experimentação com imagens, estáticas e em movimento. Seu trabalho artístico integra a coleção de Joaquim Paiva e os acervos de fotografia do MAM Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, MAC Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul e acervo impresso do IMS Instituto Moreira Salles.

Como diretora de fotografia contribuiu para diversos projetos de ficção e documentário, sendo indicada e premiada em importantes festivais.

Além de colaborar com outros cineastas no campo da imagem, escreveu, dirigiu e fotografou COPAN, documentário de longa-metragem em coprodução entre Brasil e França, que estreou no CPH:DOX 2025 e foi eleito Melhor Filme Brasileiro pelo júri do Festival É Tudo Verdade 2025.

Atualmente escreve e dirige um podcast original para o UOL e desenvolve seu novo trabalho audiovisual como autora, O Duplo e sua Sombra.

FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro | Carine Wallauer
Produção | Viviane Mendonça, Camilo Cavalcanti, Nabil Bellahsene, Justin Pechberty, Damien Megherbi
Fotografia | Carine Wallauer
Montagem | Eva Randolph
Som | Juliana Santana, Fred França
Desenho de Som | Waldir Xavier
Trilha sonora original | DJ KL Jay, DJ Will, DJ Kalfani
Gênero | Documentário
Duração | 98 minutos
País e ano de produção | Brasil / França, 2025
Empresa produtora | O PAR
Distribuição | Vitrine Filmes



Postar um comentário

0 Comentários