Crítica by Raphael Ritchie: ¨¨Há filmes políticos que procuram impacto imediato, grandes discursos e reviravoltas institucionais. A Graça segue pelo caminho oposto.
Em vez de dramatizar o poder como espetáculo, o filme prefere observá-lo quando ele já está cansado, quando a autoridade começa a se dissolver lentamente na rotina e nas consequências acumuladas de uma vida pública.
A narrativa acompanha um presidente italiano prestes a deixar o cargo depois de anos ocupando o centro das decisões. O ponto de partida poderia facilmente render um drama carregado de tensão política, mas o diretor opta por algo mais silencioso.
O interesse não está no embate entre partidos ou em crises institucionais explosivas, mas no intervalo entre compromissos oficiais, nos corredores, nas conversas discretas e nos momentos em que o personagem finalmente fica sozinho com aquilo que construiu ao longo da carreira.
Esse olhar transforma o protagonista em algo maior que um indivíduo específico. Ele passa a representar uma geração política que chega ao fim de ciclo, marcada por negociações intermináveis, alianças frágeis e pela sensação constante de que cada decisão carrega um custo invisível que só se revela com o tempo.
O filme constrói então um contraste interessante entre duas figuras que coexistem no mesmo corpo. De um lado, o líder que ainda ocupa a cadeira presidencial e precisa manter a postura de autoridade diante das câmeras e das instituições.
De outro, o homem que começa a perceber que o cargo está prestes a desaparecer e que talvez reste pouco tempo para organizar mentalmente tudo aquilo que foi feito em nome do poder.
Nesse processo, a política aparece menos como um campo de batalhas ideológicas e mais como uma engrenagem burocrática que desgasta lentamente quem vive dentro dela. Reuniões, compromissos, gestos protocolares e decisões administrativas formam uma rotina que vai acumulando peso ao longo dos anos. Quando a aposentadoria finalmente se aproxima, esse peso retorna em forma de memória, dúvida e certa melancolia.
O ritmo contemplativo pode causar estranhamento em quem espera um drama político mais tradicional, cheio de confrontos e viradas narrativas claras.
Mas é justamente nessa escolha que o filme encontra sua força. A Graça se aproxima da tradição do cinema italiano interessado em observar figuras públicas com um olhar profundamente humano, interessado nas rachaduras da imagem institucional.
Há uma percepção silenciosa atravessando todo o filme. O poder costuma parecer gigantesco enquanto está em funcionamento. Mas quando ele termina, o que resta são pessoas tentando entender o significado das próprias decisões.
Talvez seja por isso que filmes políticos se tornem mais interessantes quando deixam de olhar apenas para a instituição e passam a observar o indivíduo que precisa habitá-la¨.
Depois de render a Toni Servillo a Copa Volpi de Melhor Ator na 82ª edição da Biennale, em 2025, o longa-metragem A Graça, do italiano Paolo Sorrentino, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 19/3, em um lançamento que assinala uma parceria inédita entre a MUBI e a Pandora Filmes. Mais de 20 cidades recebem a estreia - entre elas Belém, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Recife, Maceió, Vitória, Curitiba e Florianópolis.
Paolo Sorrentino, cineasta vencedor do Oscar® e do Bafta (A Grande Beleza, A Mão de Deus), tem dez longas na carreira, sete deles estrelados por Servillo.
A dupla compõe um dos encontros criativos mais sólidos e celebrados do cinema contemporâneo, com o diretor frequentemente referindo-se ao ator como um pilar essencial de sua obra. Em A Graça, Servillo interpreta o poderoso Mariano De Santis.
“Vivemos um momento histórico em que a ética às vezes parece opcional, evasiva, opaca, ou muitas vezes invocada apenas por razões instrumentais", disse Sorrentino em entrevista à Variety. “A ética é uma questão séria.
Ela sustenta o mundo. Mariano De Santis é um homem sério. E Toni é o único ator que me transmite uma sensação imediata de autoridade - ao mesmo tempo em que emana grande humanidade só com seu olhar”, exaltou.
O protagonista enfrenta decisões angustiantes – tanto políticas quanto profundamente pessoais: em meio a dilemas morais, ele deve desafiar a própria consciência e procurar orientação nas pessoas mais próximas, incluindo a sua filha, Dorotea (Anna Ferzetti). Juntos, eles confrontam a questão atemporal: a quem pertence o nosso tempo?
Uma reflexão íntima sobre identidade e memória, A Graça traça a marca indelével que se deixa por meio da família e das ações. Filmado com o olhar poético característico de Sorrentino e enriquecido por uma trilha sonora evocativa e imersiva, é uma experiência cinematográfica tão visualmente suntuosa quanto emocionalmente inesquecível.
A Graça
Nos cinemas em 19 de março
Um lançamento MUBI e Pandora Filmes
mubi.com



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