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CRÍTICA: NATAL AMARGO

Crítica by Raphael Ritchie: ¨Uma publicitária tenta seguir trabalhando normalmente depois da morte da mãe durante o Natal, ocupando cada espaço vazio da rotina com reuniões, prazos e uma produtividade desesperada que parece funcionar menos como disciplina e mais como anestesia.




Quando um ataque de pânico interrompe esse movimento automático, a viagem para Lanzarote ao lado de uma amiga passa a servir como um deslocamento emocional inevitável, enquanto o companheiro permanece em Madri orbitando uma relação já desgastada pela incapacidade de ambos lidarem com aquilo que sentem.

Pedro Almodóvar transforma esse luto em algo silencioso e contínuo, distante de grandes explosões dramáticas. O vazio aparece nos corpos cansados, nos olhares dispersos, na dificuldade permanente de conexão entre personagens que parecem emocionalmente suspensos.

Ao mesmo tempo, a narrativa carrega uma camada de autoficção muito evidente através desse diretor roteirista inserido dentro da própria história, funcionando como um espelho direto do próprio cineasta espanhol revisitando obsessões antigas, relações interrompidas e inseguranças ligadas ao envelhecimento artístico.

A sensação de autorreferência atravessa praticamente todo o filme. Quando um personagem afirma que o diretor fictício já realizou os melhores trabalhos da carreira, a fala ecoa inevitavelmente para além da narrativa, atingindo o próprio Almodóvar de maneira melancólica.

E talvez seja justamente aí que Natal Amargo encontre sua parte mais interessante, porque o longa parece consciente desse desgaste criativo que o acompanha o tempo inteiro.

Ainda permanecem intactas marcas muito fortes do diretor. Os enquadramentos sofisticados, os figurinos vibrantes, os melodramas afetivos carregados de ironia e personagens femininas intensas continuam presentes com enorme domínio visual.

Mesmo em momentos mais pesados, o texto encontra pequenos absurdos emocionais que impedem a experiência de afundar completamente na tristeza.

Só que toda essa identidade autoral já não possui a mesma força emocional de antes. Muitos elementos retornam enfraquecidos, reapresentados sem o mesmo impacto que carregavam em trabalhos anteriores.

Isso transforma o filme numa experiência curiosamente dupla, ao mesmo tempo íntima e cansada, pessoal e repetitiva, atravessada pela impressão de um cineasta olhando para trás enquanto tenta ainda encontrar algum novo movimento dentro das próprias imagens¨.

Longa dirigido pelo premiado diretor Pedro Almodóvar (O Quarto ao Lado, Tudo Sobre Minha Mãe). Ambientado na tradicional Madrid e nas encantadoras Ilhas Canárias, o longa chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio.

No novo teaser trailer, o público pode conferir um pouco da complexidade das relações humanas e o mundo próprio dos personagens no filme.

Com o enredo explorando temas sensíveis, como luto e identidade de gênero, a obra promete muita emoção e reflexão para os espectadores.

A obra conta com Bárbara Lennie (A Garota de Fogo, As Linhas Tortas de Deus) e Leonardo Sbaraglia (O Homem Que Amava os Discos Voadores, Puan), que interpretam o casal principal Elsa e Raúl Duran.

Natal Amargo chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio de 2026.

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