Crítica by Jhow Foster: ¨O diretor turco Emin Alper (conhecido pelo aclamado Atrás da Colina e Burning Days) consolidou-se como uma das vozes mais potentes e politicamente afiadas do cinema contemporâneo.
Seu trabalho mais recente, Salvação (Kurtuluş / Salvation, 2026), que faturou o Grande Prêmio do Júri (Urso de Prata) no Festival de Berlim 2026, é um drama tenso e visualmente arrebatador.
A trama se passa em uma aldeia remota e isolada, encrustada no alto das montanhas turcas.
A calmaria do local é estilhaçada quando um clã outrora exilado retorna à região, reacendendo uma violenta e antiga disputa por terras.
O que começa como um conflito territorial logo se transforma em um estudo psicológico sufocante sobre moralidade, culpa e a busca por redenção (ou sobrevivência).
Alper usa o microcosmo daquela pequena aldeia montanhosa para espelhar fraturas sociais muito maiores, como o nacionalismo, o peso das tradições arcaicas e a intolerância estrutural.
Há uma assinatura muito clara do diretor em construir atmosferas de paranoia crescente, onde o perigo não vem apenas de fora, mas do próprio convívio social e do julgamento dos pares.
Se em Burning Days o diretor usava o calor opressor e as crateras áridas para evocar a corrupção, em Salvação o isolamento geográfico e as paisagens rochosas das montanhas servem como uma prisão a céu aberto.
A fotografia aproveita a luz natural e a imensidão do cenário para fazer os personagens parecerem pequenos diante de suas próprias tragédias e do peso inevitável do passado.
O elenco entrega performances cruas. Não existem heróis idealizados ou vilões caricatos; os personagens se movem em uma zona cinzenta de moralidade.
O retorno do clã exilado mexe com feridas abertas, e a dinâmica entre os atores (especialmente a tensão palpável entre Caner Cindoruk e Berkay Ateş) sustenta o suspense do filme do primeiro ao último minuto.
Salvação é um filme exigente, que dispensa soluções fáceis e foge do melodrama comercial.
É um thriller dramático sofisticado, que consagra Emin Alper como um mestre em traduzir tensões geopolíticas e sociais em narrativas humanas profundamente perturbadoras e visualmente irretocáveis.
Para quem aprecia o cinema de autor coreografado com precisão cirúrgica, é uma obra indispensável¨.
Grande Prêmio do Júri na Berlinale 2026, “Salvação" chega aos cinemas brasileiros em 2 de julho.
O longa-metragem escrito e dirigido por Emin Alper focaliza os mecanismos por trás de um massacre motivado politicamente no núcleo de um clã na Turquia.
É uma parábola perturbadora sobre o medo do outro, na qual o exílio e o retorno alimentam a divisão, a história enterrada ressurge, e um novo poder emerge ao instrumentalizar o passado e as crenças antigas.
Ambientado em uma remota vila montanhosa, "Salvação" gira em torno de um conflito desencadeado por uma disputa de terras. É inspirado em um caso real ocorrido em 2009, no qual 12 membros de uma família em uma vila na região curda da Turquia invadiram um casamento e mataram 44 pessoas, incluindo mulheres e crianças. “Foi um evento chocante para mim.
Comecei a me perguntar: ‘Como pessoas podem agir coletivamente dessa maneira?’. Entendi que havia um líder incitando os perpetradores. Então me questionei: ‘Como um líder pode convencer tanta gente?’.
Li as notícias, entrevistas, mas não consegui formar uma imagem satisfatória com todas essas informações. Então me vi escrevendo um roteiro que faz referência à história moderna da humanidade, que envolve massacres, genocídios e guerras”, declarou Alper à Variety.
“Como doutor em História, vejo uma conexão clara entre essa história e o contexto mais amplo. Todos estão hoje fazendo a pergunta: ‘Para onde estão levando o mundo esses líderes [Netanyahu, Trump, Putin]?’ Essa questão tornou-se repentinamente mais atual do que quando eu estava escrevendo o filme, há quatro anos atrás”, completou o diretor.
Este é o quinto longa de sua carreira. “Salvação” também traz elementos sobrenaturais, que apontam para a tradição sufi e de maneira geral para as experiências religiosas místicas na Turquia, quase sempre atreladas aos sonhos - e sua capacidade de moldar visões de mundo em diferentes culturas.
O diretor esteve na Berlinale em 2019 com “A Tale of Three Sisters”, seguido por seu filme arrebatador para Cannes em 2022,“Burning Days”.
Sinopse
Numa aldeia remota no alto das montanhas turcas, o regresso de um clã exilado reacende uma antiga disputa territorial. Enquanto ressentimentos adormecidos ressurgem, Mesut, irmão do líder local, é acometido por visões perturbadoras. Acreditando serem avisos divinos, começa a desafiar a liderança do irmão. Convicções religiosas, lutas pelo poder e tensões aumentam na comunidade.
Será que tudo isto levará à tragédia ou à salvação?
Sobre o diretor Emin Alper estudou economia e história na Universidade Boğaziçi, em Istambul, e possui doutorado em história moderna da Turquia. Seu primeiro longa-metragem, “Além da Colina”, foi exibido no Fórum da Berlinale, ganhou o Prêmio Caligari e recebeu uma Menção Especial do Júri de Melhor Primeiro Filme.
Frenesi estreou em Veneza, onde ganhou o Prêmio Especial do Júri. Seu trabalho foi apresentado na competição da Berlinale pela primeira vez com Um Conto de Três Irmãs.
Além de cineasta, ele é programador artístico da Cinemateca de Istambul.
Filmografia
2012 - Tepenin Ardı (Beyond the Hill)
2015 - Abluka (Frenzy)
2019 - Kız Kardeşler (A Tale of Three Sisters)
2020 - Alef; série de 8 episódios
2022 - Kurak Günler (Burning Days)
2023 - Arayis; série de 6 episódios
2026 - Kurtuluş (Salvation)





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