Crítica by Raphael Ritchie: ¨A moral é uma coisa muito bonita enquanto não aparece um boleto. Rubem herda um motel decadente, encontra Grace ainda instalada por lá e descobre que a falência pode ser bastante criativa quando acompanhada de desespero, internet e alguma falta de vergonha.
Gravar escondido a intimidade dos clientes e vender as imagens começa como uma ideia absurda, dessas que deveriam morrer na mesa da cozinha, mas dinheiro tem o talento inconveniente de transformar absurdo em estratégia.
Muito Prazer cresce justamente nesse terreno em que ninguém se considera exatamente uma pessoa ruim, apenas alguém improvisando. Os diálogos têm veneno suficiente para tornar esse autoengano engraçado, porque cada personagem encontra palavras muito razoáveis para defender atitudes cada vez menos razoáveis.
E talvez seja esse o detalhe mais divertido: ninguém precisa abandonar completamente a consciência, basta negociar com ela em parcelas.
Jorge Furtado mantém a história solta, rápida e sem aquela solenidade insuportável que certos temas costumam atrair. Pornografia, privacidade, desejo e dinheiro circulam pelo motel como os próprios hóspedes, entram, deixam alguma bagunça e vão embora.
O sexo nunca precisa virar espetáculo permanente porque a graça está menos nos corpos do que na burocracia criada ao redor deles, nas justificativas, nos constrangimentos e nessa capacidade humana extraordinária de transformar conveniência em princípio.
Nalva percebe antes dos outros uma verdade bastante contemporânea: na internet, qualquer intimidade pode virar produto desde que exista alguém disposto a olhar. O motel, que já cobrava pelo direito de duas pessoas desaparecerem por algumas horas, passa a lucrar justamente fazendo o contrário.
É uma perversidade simples, quase elegante, e o filme tem inteligência suficiente para não interromper a comédia a cada cinco minutos para explicar isso.
Rubem e Grace ainda precisam administrar a própria aproximação enquanto comercializam a dos outros, contradição que acrescenta uma camada divertida sem obrigar o romance a dominar tudo. Algumas ideias acabam apenas roçando a superfície porque são muitas para 98 minutos, mas isso também preserva o caráter despretensioso da experiência.
A melhor ironia talvez esteja nessa sucessão de pequenas concessões. Ninguém acorda decidido a cruzar todos os limites. Cruza um, recebe por ele, cruza outro e logo está chamando de oportunidade aquilo que, pouco antes, teria chamado de absurdo. É uma comédia sobre sexo, claro, mas principalmente sobre como a consciência humana pode ser surpreendentemente flexível quando começa a dar lucro¨.
SINOPSE
Rubem, um motorista de aplicativo sem perspectivas, recebe uma herança inesperada: o Motel Pérola, que logo descobre ser um prédio em ruínas. Lá ele conhece Grace, ex-funcionária que ficou morando numa das suítes quando o motel fechou.
Sem conseguir vender o imóvel e atolados em dívidas, Grace e Rubem unem-se para reativar o motel.
Quase de brincadeira, com a ajuda de Nalva, que sabe tudo de internet, eles começam a gravar seus clientes e, para fazer algum dinheiro extra, a vender os vídeos, com identidades protegidas, para sites eróticos.
O esquema se torna rapidamente lucrativo e, como era de se esperar, perigoso.
FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro: Jorge Furtado
Produção Executiva: Nora Goulart
Direção de Fotografia: Lívia Pasqual
Montagem: Giba Assis Brasil, edt.
Direção de Arte: Fiapo Barth, Dayane Paz
Figurinos: Rosângela Cortinhas
Produção de Elenco: Daniela Silveira
Direção de Produção: Glauco Urbim
Som direto: Rafael Rodrigues
Caracterização: Jojo Silveira, Juliane Senna
Trilha sonora original: Maurício Nader
Desenho de som: Kiko Ferraz, Ricardo Costa
Elenco principal: Daniel de Oliveira (Rubem), Luisa Arraes (Grace), Samantha Jones (Nalva), Felipe Velozo (Arlindo), Drica Moraes (Mariana)











0 Comentários