Crítica by Raphael Ritchie: Tudo em Bugonia gira em torno de uma crença insana que, aos poucos, vai fazendo sentido dentro da lógica do filme.
Dois homens sequestram uma CEO convencidos de que ela é uma alienígena infiltrada, pronta para dar fim à humanidade. O que começa como um delírio conspiratório vai ganhando forma, tensão e até certa coerência narrativa, conforme o filme mergulha em temas como paranoia, poder e desinformação.
Emma Stone interpreta Michelle Fuller, a mulher mantida em cativeiro, com uma força enigmática que confunde, desafia e instiga. A personagem transita entre vulnerabilidade e controle com tanta presença que, mesmo amarrada, ela parece comandar o ambiente. É aí que o filme embaralha as posições de vítima, agressor, salvador e ameaça.
Yorgos Lanthimos conduz tudo com aquele visual particular que já é marca dele. Há algo de milimetricamente desconfortável em cada cenário, em cada corte de câmera, em cada plano sustentado por tempo demais. O design de produção aposta no estranho como atmosfera, com cores desajustadas, espaços vazios e uma frieza que combina com o absurdo da premissa.
O humor, aliás, também é estranho. Um tipo de ironia que mistura o grotesco ao patético, como se zombasse de quem acredita demais e também de quem não acredita em nada.
Há uma camada muito clara de crítica ao discurso paranoico que se dissemina por bolhas e algoritmos. A loucura dos sequestradores nunca é apenas pessoal. Ela é retroalimentada, alimenta o outro, se justifica em vídeos, notícias, dados falsos. E o filme, de forma provocativa, decide não explicar demais.
Ele te coloca nesse campo instável, onde toda certeza vira ameaça. Nesse sentido, há uma analogia inevitável com movimentos extremistas contemporâneos que confundem convicção com verdade e manipulam o medo para justificar violência.
Mas por mais que o filme brinque com essa incerteza, ele eventualmente revela suas cartas. E é nesse ponto que o mistério perde força. Quando as intenções se tornam mais explícitas, o roteiro começa a repetir padrões e fica mais fácil prever os desdobramentos. A sensação é de que, apesar da proposta ousada, o desenvolvimento opta por caminhos conhecidos. Não compromete a experiência, mas enfraquece o impacto.
Ainda assim, Bugonia funciona como alegoria. Ele projeta nos alienígenas imaginários as ansiedades reais do presente, sobre controle, tecnologia, manipulação e ego. Há algo de trágico nessa busca por inimigos invisíveis, como se fosse mais fácil acreditar numa invasão interplanetária do que aceitar que o caos é humano mesmo.
Parte da programação da 49ª Mostra Internacional de
Cinema em São Paulo, a obra foi exibida pela primeira vez no Brasil,
após a coletiva de imprensa do festival no último sábado, dia 4 de
outubro.
A produção, que estreou mundialmente na competição do Festival de Veneza, acompanha dois jovens obcecados por teorias da conspiração que sequestram a poderosa CEO de uma grande empresa, convencidos de que ela é uma alienígena prestes a destruir o planeta Terra.
No elenco estão Emma Stone,
Jesse Plemons, Aidan Delbis, Stavros Halkias e Alicia Silverstone. A direção é
de Yorgos Lanthimos com roteiro assinado por Will Tracy, de “Succession”.
O longa tem distribuição da Universal Pictures e
estará disponível nos cinemas a partir de 27 de novembro também
em versões acessíveis.



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