Crítica by @rapharitchie : ¨Dois irmãos caminham pelas ladeiras de São Francisco em busca de uma oportunidade. Um quer falar de sentimentos, o outro só quer tocar.
E nesse percurso, enquanto a cidade vai se abrindo ao redor deles, o que emerge é um retrato íntimo sobre vínculo, frustração e aquilo que pulsa nos silêncios entre uma nota e outra, entre uma conversa atravessada e um olhar que não se sustenta por muito tempo.
O filme se desenrola em um único plano sequência e isso faz com que tudo pareça estar acontecendo ali, ao vivo, na nossa frente. A câmera os acompanha com uma naturalidade que beira o documental, absorvendo sons de rua, reações de desconhecidos, vitrines, ladeiras e interrupções que jamais aconteceriam num set controlado. Esse entorno urbano não é só pano de fundo, ele afeta os personagens, interfere na caminhada, ecoa nas pausas entre uma música e outra. A cidade respira junto com a história.
As músicas, tocadas ali mesmo, no improviso, não surgem como interlúdio, mas como extensão do que não se consegue dizer em palavras. Mesmo que tenham tons parecidos, um certo lamento, uma melancolia que paira, elas revelam algo novo sobre os personagens a cada vez.
E o trabalho de som aqui é digno de nota. Mesmo quando há música e diálogo ao mesmo tempo, a mixagem sabe nos conduzir. O ouvido é guiado com delicadeza, como se o filme sussurrasse “ouve isso aqui” sem precisar parar o que está acontecendo.
No centro de tudo estão os dois irmãos. A relação entre eles carrega afeto, cansaço, lembranças mal resolvidas. Há rachaduras que não são expostas diretamente, mas que ficam evidentes na maneira como um evita certos assuntos ou como o outro insiste em tocar mais alto do que deveria.
O pai, ausente do início ao fim, é citado, lembrado, temido. Nunca aparece, mas está lá como se sua ausência fosse o elemento mais presente. E é nesse vazio que a narrativa se ancora, menos pela busca em si e mais por tudo o que ela revela no caminho.
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