CRÍTICA BY RAPHAEL RITCHIE: ¨A Meia-Irmã Feia parte de uma pergunta incômoda: e se o conto de fadas fosse contado pelo ponto de vista da rejeitada? Elvira não é a princesa, nem a vilã caricata, mas uma jovem marcada por um padrão que a exclui desde o nascimento.
Num reino onde a beleza é a única moeda possível, ela se vê apagada à sombra da meia-irmã Agnes e empurrada para uma existência onde o afeto, o desejo e até o direito de sonhar parecem reservados a quem carrega o rosto certo.
O filme constrói essa lógica com brutalidade. A beleza não aparece aqui como adorno ou privilégio ingênuo, mas como instrumento de poder e de controle. O que se espera das mulheres nesse mundo é que sejam belas, submissas e desejáveis. E quem não se encaixa, como Elvira, precisa sangrar por atenção. Literalmente.
É aí que o longa mergulha no grotesco. Rituais físicos de transformação, cenas de mutilação e uma estética de body horror que aperta o estômago enquanto escancara o absurdo de um sistema que exige sofrimento como moeda de aceitação.
As imagens são fortes, desconfortáveis, quase impossíveis de encarar com frieza. Há algo profundamente angustiante em assistir alguém destruir o próprio corpo na tentativa de se tornar amável.
A direção aposta numa ambientação de época meticulosamente construída, mas tudo ali está corrompido. O figurino, a maquiagem, a arquitetura, os símbolos clássicos do conto de fadas estão em cena, mas esvaziados de encantamento. O que resta é a opressão travestida de tradição.
Um conto sem fadas, onde o castelo é prisão e o príncipe é só mais uma engrenagem de uma lógica cruel.
Ainda assim, é possível que a força visual do filme — que é de fato impressionante — acabe engolindo parte da dimensão emocional da história. A estética é tão propositalmente opressora e simbólica que em alguns momentos a gente sente falta de mergulhar mais fundo na subjetividade de Elvira.
Ela é construída como figura trágica, mas seu sofrimento parece, às vezes, mais alegoria do que carne viva.
A Meia-Irmã Feia não se propõe a agradar. É um filme deliberadamente incômodo, que tensiona, provoca e repele. Mas também abre espaço para refletir sobre o que a sociedade faz com os corpos que não atendem às expectativas.
E como, mesmo em mundos encantados, ainda é o olhar do outro que define quem tem valor.
Destaque no Festival de Cinema de Sundance e Berlin International Film Festival 2025, o filme vencedor do prêmio Bucheon International Fantastic Film Festival levou mais de 700 mil pessoas aos cinemas do México e traz em seu elenco nomes como os de Lea Myren (da série “Kids in Crime”), Ane Dahl Torp (“A Onda”) e Thea Sofie Loch Næss (da série "O Último Reino").
A MEIA-IRMÃ FEIA (The Ugly Stepsister | Den Stygge Stesøsteren) chega exclusivamente nos cinemas brasileiros no dia 23 de outubro, com cópias dubladas e legendadas e distribuição da Mares Filmes e a Alpha Filmes.
A MEIA-IRMÃ FEIA
Noruega – Dinamarca – Romênia – Polônia – Suécia | 2025 | 109 min. | Terror - Comédia | 18 anos
Título Original: Den Stygge Stesøsteren | The Ugly Stepsister
Direção: Emilie Blichfeldt
Roteiro: Emilie Blichfeldt
Elenco: Lea Myren, Ane Dahl Torp, Thea Sofie Loch Næss
Distribuição: Mares Filmes | Alpha Filmes






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