CRÍTICA BY RAPHAEL RITCHIE: ¨Johan trabalha numa sauna gay em Copenhague, entre vapor, corpos e silêncios, numa rotina que parece livre, mas também anestesiada. O sexo casual vai preenchendo o tempo enquanto ele evita olhar para dentro. Até que William aparece.
Um homem trans, cheio de presença e delicadeza, que desorganiza aquela estabilidade fria com um tipo de afeto que Johan talvez nem soubesse que queria.
A relação entre os dois é construída aos poucos, sem fórmulas batidas. O filme foge dos atalhos e entrega cenas de intimidade que não estão interessadas só em corpo, mas em escuta, vulnerabilidade, desejo e descoberta. Não tenta educar nem rotular. Deixa os encontros acontecerem, com o tempo e o cuidado que eles exigem.
A sauna, onde Johan trabalha, é mais do que cenário. Funciona como um retrato em miniatura da comunidade queer, com suas dinâmicas de prazer, solidão, performance e pertencimento.
E a cidade de Copenhague, embora ofereça liberdade em muitos aspectos, também carrega suas próprias tensões. A direção sabe capturar isso com precisão. A iluminação merece destaque. Mesmo nos ambientes escuros, tudo que precisa ser sentido ou visto está lá, sem esforço visual, sem exagero.
Há uma reflexão sutil sobre os privilégios que existem dentro da própria comunidade. A diferença entre ser um homem cis gay e um homem trans gay aparece não como oposição, mas como contraste de experiências, de acessos, de escuta. William se mostra seguro, mas carrega nas entrelinhas o peso de sempre precisar se afirmar. Johan, mesmo sem perceber, vive num lugar de conforto que raramente é posto em xeque.
O único ponto onde o filme parece evitar uma complexidade maior é no arco interno de Johan. Logo no início, ele comenta que nunca teve experiências com pessoas de vivências diferentes das suas, mas quando conhece William, tudo flui com naturalidade.
É bonito ver essa abertura, mas talvez o roteiro ganhasse mais densidade se mostrasse alguma hesitação, não como resistência à identidade de William, mas como parte do processo de descoberta e reconstrução de desejo. Os conflitos que surgem são todos externos. Por dentro, Johan parece atravessar tudo com uma leveza que pode soar idealizada.
Mesmo assim, a honestidade da proposta se mantém. A narrativa não busca impacto ou discursos prontos, mas a construção de um espaço onde o toque, a escuta e a intimidade ganham densidade. Sauna fala de encontros com o outro e consigo mesmo e de tudo que se revela quando o corpo, antes blindado, começa a baixar a guarda¨.
Ficha técnica
direção
Mathias Broe
roteiro
Mathias Broe, William Lippert
fotografia
Nicolai Lok
montagem
Linda Man
desenho de som
Mia Terry
música
Emil Davidsen
design de produção
Signe Krab Nymann
elenco
Magnus Juhl Andersen, Nina Rask, Dilan Amin, Klaus Tange, Peter Oliver Hansen
produção
Mads-August Hertz
produzido por
Nordisk Film
world sales
TrustNordisk





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