Crítica by Raphael Ritchie: ¨“A Anatomia dos Cavalos” é um filme que parece existir entre tempos.
No século XVIII, o revolucionário Ángel Pumacahua retorna à sua vila nos Andes peruanos e, a partir de sua chegada, o espaço se parte em camadas de tempo sobrepostas, como se o passado e o presente não fossem mais linhas, mas poeira misturada no ar.
A queda de um meteorito provoca uma ruptura que não é apenas física, mas simbólica, e o filme constrói sobre isso uma reflexão sobre memória, luta e permanência.
A ambientação nos Andes é uma das forças do filme. As paisagens áridas, o vento constante, a secura da terra e os sons distantes de animais criam uma sensação de tempo suspenso. É um cenário que respira por conta própria e parece tanto acolher quanto afastar quem o habita.
Dentro desse espaço, Eustaquia surge como o eixo emocional da narrativa, uma pastora de lhamas que procura a irmã desaparecida enquanto o mundo ao redor parece perder os contornos de realidade. Ela é o fio que amarra o drama familiar ao coletivo, o íntimo ao político, o humano ao místico.
O filme é construído de forma fragmentada, com uma lente que capta o tempo de maneira irregular, oscilando entre longos silêncios e momentos quase ritualísticos. Essa estrutura reforça a ideia de que a revolução — aquela do século XVIII e a que ainda pulsa hoje — não é uma narrativa linear.
Ela se repete, se distorce, se reinventa. Há algo de hipnótico na maneira como o diretor mistura tempos e corpos, fazendo com que figuras históricas e contemporâneas se cruzem como se fossem ecos de uma mesma ferida.
Ao mesmo tempo, essa opção estética pode afastar parte do público. A narrativa se torna dispersa, os símbolos às vezes se sobrepõem ao sentido, e é possível se perder entre os gestos e os rituais que o filme não explica.
Para quem não está familiarizado com o contexto cultural dos Andes, alguns ritos e formas de lidar com a morte podem soar indecifráveis, como fragmentos de uma linguagem que escapa à lógica ocidental. Ainda assim, há uma beleza nessa opacidade — uma recusa em traduzir o sagrado, em simplificar o que pertence a outra cosmologia.
“A Anatomia dos Cavalos” é menos sobre o que acontece e mais sobre o que reverbera. Ele questiona o que significa lutar e o que resta de uma revolução quando o tempo se desfaz.
É um cinema que exige entrega, paciência e escuta. Um filme que prefere o enigma à clareza, o gesto ao discurso, e que deixa uma sensação de reverência e confusão ao mesmo tempo, como se estivéssemos diante de um território que não se deixa decifrar, apenas sentir¨.






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