Crítica by Raphael Ritchie: ¨Babystar observa uma adolescente tentando existir num espaço que já foi completamente ocupado antes mesmo que ela soubesse quem era. Luca nasceu dentro de uma moldura digital.
Cada sorriso, cada conquista, cada dor foi registrada, editada, embalada para consumo. Aos 16 anos, ela já tem uma audiência fiel, uma rotina roteirizada e um papel fixo nessa narrativa de família perfeita, mas quase nenhum controle sobre a própria vida.
O filme escancara o absurdo de uma infância construída para o feed. Desde os primeiros minutos, a direção escolhe uma estética que reforça essa vigilância constante: sequências animadas que invadem a tela, cortes abruptos, uma câmera que observa com frieza, como se a própria linguagem do filme imitasse o algoritmo que molda Luca. Tudo é artificial, espetacular, performado. E justamente por isso, profundamente inquietante.
A chegada de um novo bebê, tratado desde o anúncio como “a próxima temporada do canal”, é o que rompe o equilíbrio frágil. Luca começa a perceber que não está só cansada, está esvaziada.
A relação com os pais, antes travestida de parceria, revela-se um ciclo de exploração disfarçado de afeto. A casa onde vivem, bonita e organizada, parece ao mesmo tempo estúdio, prisão e cenário de um programa que nunca termina.
O mais potente em Babystar talvez seja o conflito interno da protagonista. Ela é carismática, ciente da própria imagem, mas também cada vez mais sufocada por ela. Existe uma tensão real entre o desejo de desaparecer e o medo de se tornar invisível. Porque quando a vida inteira foi validada por likes, qualquer tentativa de autenticidade parece um risco existencial.
O filme toca em temas conhecidos, como exposição infantil, mercantilização da intimidade e alienação digital, mas faz isso com uma forma visual que amplifica o desconforto.
Ainda assim, para quem já viu outros filmes que mergulham no universo dos influenciadores, a proposta pode parecer menos inovadora do que inicialmente parece. Há ecos evidentes de obras recentes sobre a lógica de performance, e isso dilui um pouco o frescor da experiência.
Na reta final, essa força visual vai se perdendo. O roteiro parece se afastar das angústias mais íntimas da protagonista e passa a flertar com soluções mais simbólicas e menos contundentes.
A sensação é de suspensão, de algo que ficou pela metade, não como provocação, mas talvez por hesitação mesmo.
Babystar funciona como uma tentativa de desconstruir a estética do feed e revelar as rachaduras que se escondem atrás da lente.
E quando Luca finalmente encara a própria imagem sem filtro, o que resta não é libertação. É o começo de uma pergunta que ela nunca teve espaço para fazer¨.




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