Crítica by @Raphael Ritchie: ¨Cidade Sem Sonho acompanha Toni, um garoto de 15 anos que vive num dos maiores assentamentos informais da Europa, nos arredores de Madri.
Ele mora com o avô e com a família, todos catadores, num espaço onde o improviso já virou cotidiano, mas que começa a tremer com as primeiras ordens de demolição.
A tensão cresce devagar, e o filme vai se enraizando justamente aí, entre quem quer resistir, quem precisa sair e quem ainda não sabe muito bem o que sente.
O lugar, aliás, não é só cenário. A câmera observa La Cañada Real como se tivesse memória, com ruas escuras, postes sem luz, cachorros soltos e o céu riscado de fios. Tem um tipo de dignidade silenciosa no jeito como o filme olha para tudo isso, como se cada parede e cada canto carregassem um histórico próprio de batalha.
A sensação é de que o espaço tem um pulso, como se respirasse junto com os personagens.
Toni é construído com cuidado. Ele não grita revolta, nem finge maturidade. É um adolescente, com todas as dúvidas que isso carrega. Tem o afeto pelo avô, que resiste. Tem o medo dos pais, que ponderam. E tem a cabeça cheia de possibilidades que ainda não cabem no lugar onde vive.
Às vezes ele pega o celular, grava vídeos com os amigos, usa filtros exagerados e nesse gesto simples dá um jeito de transformar a realidade. É como se quisesse montar outro mundo, onde ainda dá pra sonhar alguma coisa, mesmo que seja só por alguns segundos na tela.
O filme também acerta quando mostra esse conflito entre gerações sem forçar contraste. O avô quer ficar, os pais consideram ir embora, os amigos já estão meio indo. Mas ninguém está errado, todo mundo só está tentando lidar com o que dá.
E o filme entende isso. Não escolhe um lado, nem faz discurso. Só acompanha, escuta e observa. E isso já basta.
Visualmente, o filme mistura bem a textura mais crua da câmera com esses momentos filmados no celular, mais coloridos, mais saturados e mais caóticos. Essa combinação não quebra a narrativa, pelo contrário, ela amplia.
Mostra como o olhar de Toni é múltiplo, como ele tenta dar conta do que sente mesmo sem saber nomear tudo. E nisso, o filme ganha densidade.
Talvez, para quem já viu muitos filmes de periferia ou de ocupação, algumas escolhas aqui soem repetitivas. A ameaça do Estado, o laço comunitário e a luta por permanecer já apareceram em outros lugares. E sim, em alguns momentos, a história anda em círculos. Fica meio parada, como se estivesse esperando que algo grande acontecesse, mas sem pressa para decidir o que.
Pode cansar um pouco, se a gente espera um clímax mais direto. Mas ao mesmo tempo, talvez não precisasse ser diferente.
Porque o que o filme constrói não é um arco redondo. É uma permanência. Um tempo suspenso. E quando ele termina, não parece que terminou. Parece só que a gente parou de olhar. E o que fica é esse eco de um lugar que continua ali, resistindo na beira do apagamento¨.
Cidade Sem Sonho | Ciudad Sin Sueño | 2025 | Espanha, França | 97 min. | Direção: Guillermo Galoe | Roteiro: Guillermo Galoe, Víctor Alonso-Berbel | Elenco: Antonio “Toni” Fernández Gabarre, Bilal Sedraoui, Jesús “Chule” Fernández Silva, Felisa Romero Molina, Pura Salazar, Francisca Jiménez.
Título original: Ciudad Sin Sueño
Ano de lançamento: 2025
Direção: Guillermo Galoe
Gênero: Drama




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