Crítica by Raphael Ritchie: ¨Enzo começa como um gesto de recusa. Um adolescente de dezesseis anos, criado entre confortos e expectativas de uma família burguesa no sul da França, decide trocar os livros pela alvenaria, a piscina de casa pelo cimento do canteiro de obras, e os caminhos já traçados por uma rota que ele mesmo quer construir.
Só que o filme não dá respostas fáceis sobre esse gesto. Não explica muito de onde vem esse desejo, o que exatamente move o protagonista, o que ele procura ou o que está tentando evitar. A decisão de Enzo parece surgir mais como uma urgência do corpo do que da palavra. E isso gera tanto fascínio quanto distância.
A narrativa acompanha esse movimento sem pressa. Os dias se acumulam entre aprendizados práticos, silêncios domésticos e o peso invisível das expectativas que cercam um garoto branco, privilegiado e, ao que tudo indica, deslocado dentro da própria casa. O filme constrói bem esse contraste. A mansão elegante da família, com jardim impecável e refeições silenciosas, parece mais fria e opressora do que o canteiro barulhento onde Enzo começa a se sentir vivo.
É nesse outro mundo que ele encontra Vlad, um colega ucraniano que parece ter vindo de uma realidade oposta, marcada pela migração, pela guerra, pela sobrevivência. A relação entre os dois se torna o centro emocional da história. Há admiração, curiosidade, desejo, mas também um abismo entre as experiências que nunca é completamente superado. Vlad carrega a dureza de quem teve que crescer rápido demais, enquanto Enzo ainda busca um motivo para crescer.
A direção escolhe uma abordagem íntima, contida, que evita grandes viradas dramáticas para se concentrar nos detalhes: um olhar trocado, uma mudança de tom, um gesto hesitante. Há uma tentativa de falar não apenas da transição de classe, mas também da descoberta de si, da sexualidade, da raiva sem nome que às vezes aparece na adolescência quando o mundo inteiro parece pronto demais para quem ainda está começando a entender o próprio corpo.
Mesmo assim, em alguns momentos, o filme parece refém da perspectiva de Enzo. As camadas sociais que o cercam são evocadas, mas não aprofundadas. A vida de Vlad, a questão dos imigrantes, os ecos da guerra, tudo isso aparece mais como pano de fundo do que como parte orgânica da trama. Há uma hierarquia de olhares que limita a pluralidade e reforça o foco no desconforto existencial do protagonista burguês. E como o próprio Enzo pouco se expressa, ficamos presos à superfície de seus gestos, tentando adivinhar o que há por trás daquele impulso de romper.
Enzo é um filme sensível, com um olhar apurado para o vazio que às vezes habita o privilégio. Mas também é uma obra que levanta questões mais do que mergulha nelas. A escolha de trocar o destino fácil pelo incerto ganha força simbólica, mas nem sempre narrativa. Ainda assim, há algo potente nessa tentativa de mapear o desejo como força de ruptura, mesmo quando ele ainda não sabe direito o que está buscando¨.




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