Crítica by Raphael Ritchie: ¨Nouvelle Vague é um filme sobre a lembrança de um momento em que tudo parecia possível no cinema. E talvez por isso mesmo, ele escolha ser tão fiel à estética daquele tempo.
Rodado em preto e branco, no formato 4:3, com um elenco que encarna figuras históricas como Godard, Jean Seberg e Belmondo, o longa funciona como uma tentativa de reencontro com a faísca que deu origem a uma revolução estética. Mas essa tentativa não é fria nem didática.
Ela tem afeto. Tem até uma certa melancolia, como se soubesse que aquele tipo de liberdade não existe mais.
O filme recria os bastidores da realização de Acossado, o primeiro longa de Jean-Luc Godard, não para ensinar uma lição sobre cinema, mas para lembrar que aquela foi uma época marcada por risco, improviso, arrogância, tensão e também por um entusiasmo quase juvenil.
Godard é retratado como um sujeito obsessivo, movido por um desejo radical de romper com as convenções. E Belmondo e Seberg aparecem entre o mito e a pessoa, figuras que ajudaram a definir uma geração, mas que também tinham seus próprios conflitos, inseguranças e limites.
O longa humaniza esse trio sem abrir mão do peso simbólico que eles carregam.
É um filme que funciona melhor para quem já tem certa familiaridade com a Nouvelle Vague francesa. Quem não conhece os nomes, os estilos e o contexto pode se sentir um pouco de fora. E isso não é um defeito em si, mas é algo que pode afetar a experiência.
O ritmo é mais contemplativo, a estrutura segue uma lógica muito própria de filmes sobre cinema, com bastidores, metalinguagem, referências, e isso nem sempre conversa com quem busca um entretenimento direto. O preto e branco pode afastar também, para quem já entra com o olhar de resistência.
Ainda assim, para quem se conecta, há algo bonito na maneira como o filme olha para trás. Não como nostalgia vazia, mas como homenagem à inquietação.
Ao gesto de criar algo novo mesmo sem saber direito o que vai sair. E ao cinema como espaço de invenção, atrito, falha e possibilidade¨.







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