By Raphael Ritchie: ¨Na terça-feira, 10 de março, a coletiva de imprensa de 2 Die 4 reuniu o protagonista Felipe Nasr e os diretores Abdala Brothers para discutir os bastidores do longa, a construção da narrativa e o desafio de transformar uma corrida real em experiência cinematográfica.
Entre relatos técnicos, emocionais e até caóticos, o encontro deixou claro que o filme não quer apenas registrar uma vitória, mas capturar a mente de um competidor movido pela obsessão de chegar ao limite.
Ao comentar o próprio percurso, Felipe Nasr relembrou sua trajetória do automobilismo até o endurance e falou com franqueza sobre a ambição que passou a guiar sua carreira depois da Fórmula 1. “Quando eu fiz essa transição pro mundo de endurance, eu coloquei uma meta muito certa.
Eu falei: eu quero ser o maior piloto de endurance que o mundo já viu”, afirmou. Para ele, o filme consegue mostrar justamente essa camada menos visível da competição, aquilo que existe para além do volante e dos números.
Nasr também destacou que a produção conseguiu captar uma dimensão íntima de sua personalidade como atleta. “Enquanto eu tiver a oportunidade de entrar e acelerar, eu vou almejar ganhar”, disse. Em outro momento, resumiu o espírito que a obra tenta traduzir: “Você coloca tudo na linha. Eles conseguiram captar essa essência”.
Essa percepção, segundo o piloto, ficou ainda mais evidente quando o filme foi visto por sua família. “Foi a primeira coisa que minha irmã falou quando viu o filme. Ela falou: esse é você. Agora as pessoas vão poder conhecer quem é o Felipe que tá por trás do volante o tempo todo”, contou.
Os diretores André e Salomão Abdala explicaram que o projeto nasceu justamente dessa convicção de que havia uma grande história ali, independentemente do resultado final da corrida. Segundo eles, a resistência inicial do mercado foi imediata. “A primeira pergunta foi: e se o Felipe não ganhar?”, lembraram.
Ainda assim, para a dupla, esse nunca foi o ponto central. “A ideia do filme é a seguinte: existe um cara, um brasileiro, que tem um nível de piloto dentro dele que a gente sabia que merecia ser visto. A história é o obcecado tentando fazer de tudo pra fazer aquilo acontecer”, disseram.
Na visão dos diretores, a força da narrativa está menos no troféu e mais na maneira como um atleta reage quando tudo ameaça escapar do controle. “É muito mais interessante você ver o que um vencedor faz quando ele perde do que o que ele faz quando ele ganha”, defenderam. “O que importa é o quanto esse cara é imparável”.
A produção de 2 Die 4 também chamou atenção pelo radicalismo do método. Filmado durante as 24 Horas de Le Mans com uma equipe reduzida, o longa foi realizado em condições que, segundo os próprios realizadores, beiravam o improvável. “Ninguém faz isso”, ouviram diversas vezes ao longo do processo. Ainda assim, seguiram em frente. “A gente resolveu arriscar tudo pra fazer isso”, disseram.
Durante a coletiva, os Abdala Brothers detalharam a dificuldade de filmar em um ambiente que não parava em nenhum momento e no qual o cinema jamais poderia interferir no desempenho esportivo. “As únicas pessoas que queriam fazer filme eram os Abdala Brothers. O resto da equipe queria ganhar”, resumiram, ao explicar a tensão constante entre registrar tudo e não atrapalhar ninguém no box ou na pista.
Houve até situações-limite. Em uma delas, a equipe quase viu o carro de Nasr ser punido por conta de uma câmera instalada para a filmagem. “A FIA falou: você tem cinco minutos pra arrancar isso ou vocês são desclassificados da prova inteira”, revelaram.
O episódio, que poderia ter comprometido tudo, acabou forçando a equipe a recorrer às imagens oficiais de transmissão, algo que, segundo eles, deu ainda mais autenticidade ao resultado.
A ambição visual e sonora também foi assunto recorrente. Os diretores explicaram que a proposta era levar a experiência ao máximo, inclusive no desenho de som. “Eu quero dar pra audiência a experiência que o piloto viveu”, afirmou um dos irmãos, ao comentar o trabalho de pós-produção.
A ideia, segundo ele, era fazer com que o público não apenas assistisse à corrida, mas sentisse a pressão, os ruídos, as vozes e a tensão como se estivesse dentro do carro.
Essa busca por imersão se conecta diretamente à escolha pelo formato IMAX, um dos principais diferenciais do projeto. Os Abdala Brothers classificaram a tecnologia como “o ápice de tudo que um filme pode ser” e celebraram o fato de 2 Die 4 se tornar um marco técnico para o audiovisual nacional.
“É o primeiro filme brasileiro com o maior selo do planeta do cinema”, afirmaram, ressaltando o peso simbólico de levar uma produção brasileira a esse patamar de exibição.
Eles também disseram que o longa representa uma conquista histórica nesse sentido. “Trazer isso pro Brasil é muito grande”, comentaram. “A gente fez uma listinha de coisas que queria conquistar, e uma delas era fazer o primeiro filme brasileiro nesse formato”.
Outro ponto importante discutido na coletiva foi a construção de uma versão do filme especialmente pensada para o público brasileiro. Segundo os realizadores, o corte nacional busca aproximar ainda mais a experiência da nossa sensibilidade e do nosso ritmo de recepção.
“Nós queremos ter um corte que seria muito especial pra cá”, disseram. A estratégia, explicaram, não parte de uma adaptação oportunista, mas de um desejo antigo de fazer com que a história chegasse ao público local com ainda mais força. “Sempre foi essa a versão que a gente quis fazer”.
Felipe Nasr também comentou como a comunicação dentro do carro aparece no filme e como o componente emocional interfere diretamente na forma como ele reage durante a prova.
“A parte de comunicação com o time é toda em inglês”, explicou. Mas o impulso mais visceral, segundo ele, nem sempre sai de maneira racional. “Tem momentos que eu vou soltar um palavrão e volto. Eu sei que é aquele meu momento de voltar e não ficar segurando esse tipo de emoção por tanto tempo”, contou, ao explicar a intensidade mental de uma corrida de longa duração.
Em um dos trechos mais pessoais da coletiva, Nasr falou sobre a presença do pai em Le Mans e sobre o impacto de expor uma faceta mais íntima em cena. “Eu preciso voltar a ser o Felipe”, afirmou. “Vou lá, vou dar um abraço pro meu pai, vou falar com minha família, vou falar o que eu tô sentindo.
É uma maneira de eu me esvaziar também. E agora eu volto pro Felipe que vai entrar no carro de novo”. Para ele, essa alternância entre o competidor e o homem fora da pista é parte essencial da sobrevivência emocional em provas desse porte.
Ao encerrar a conversa, ficou evidente que 2 Die 4 quer ocupar um espaço raro no cinema brasileiro: o de uma produção que une esporte, risco real, linguagem audiovisual ambiciosa e um personagem central movido por obsessão.
Mais do que uma narrativa sobre automobilismo, o filme parece interessado em algo mais amplo e talvez mais universal: o retrato de alguém que se recusa a desistir.
“Quando a gente foca num objetivo, a gente foca num sonho, a gente tem que também saber viver o processo dele”, resumiu Felipe Nasr. A frase, dita em meio a um debate sobre vitórias, derrotas e tempo, talvez seja a que melhor sintetize o que 2 Die 4 pretende ser.





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