Crítica by Raphael Ritchie: ¨Em Nino, a proposta se revela desde os primeiros momentos como um gesto de observação contínua, interessado menos em conduzir uma narrativa tradicional e mais em acompanhar um estado de existência que ainda não se organiza plenamente em palavras.
Ao delimitar esse recorte de tempo entre a sexta e a segunda, o filme constrói uma sensação de proximidade que não depende de grandes acontecimentos, mas da permanência ao lado de um personagem que atravessa um intervalo delicado, em que tudo parece simultaneamente em curso e suspenso.
A presença do diagnóstico de câncer estabelece uma camada concreta que atravessa toda a experiência, ainda que a direção evite qualquer caminho mais evidente de dramatização, recusando picos emocionais ou construções convencionais de tensão.
O que se impõe é um registro contido, interessado nesse espaço entre o impacto da notícia e o início do tratamento, onde a vida segue, mas com uma leve distorção perceptível em cada gesto e em cada encontro.
Esses encontros, aliás, carregam uma densidade silenciosa que se manifesta na dificuldade de nomear o que está em jogo, criando interações marcadas por pausas, olhares e tentativas incompletas de comunicação.
Há uma sensibilidade particular na forma como o filme se aproxima desses momentos, permitindo que o desconforto e a hesitação coexistam sem a necessidade de resolução imediata.
Paris surge integrada a esse estado interno, não como um cenário que se impõe, mas como um fluxo que acompanha o deslocamento do personagem, reforçando essa ideia de trânsito constante, de algo que ainda não encontrou um ponto de estabilidade.
A cidade respira junto com ele, absorvendo essa suspensão e devolvendo uma sensação de continuidade que contrasta com o que permanece indefinido.
A atuação central sustenta esse equilíbrio com precisão, construindo uma presença que se afirma na contenção e na escuta, evitando explicações diretas e apostando na força do não dito. É nesse espaço de silêncio e permanência que o filme encontra sua identidade, ainda que essa mesma escolha, por vezes, crie uma distância que dificulta uma conexão mais imediata.
O resultado é um trabalho que se dedica a esse intervalo específico, a esse momento em que a vida não interrompe seu curso, mas se reorganiza de maneira quase imperceptível, revelando um olhar atento e coerente com sua proposta, ainda que nem sempre envolva com a mesma intensidade que sugere¨.
O longa “Nino de Sexta a Segunda”, de Pauline Loquès, será lançado dia 7 de maio, nos cinemas em circuito nacional, pela distribuidora Filmes do Estação.O filme levou dois prêmios César nas categorias de Melhor Primeiro Filme para a diretora Pauline Loquès e para a produtora Sandra Da Fonseca e Melhor Ator Revelação para Théodore Pellerin.
“Nino de Sexta a Segunda” teve sua estreia mundial na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2025, em 18 de maio, onde Pellerin ganhou o prêmio Louis Roederer Foundation Rising Star. Recebeu quatro indicações ao 51º Prêmio César , vencendo nas categorias de Melhor Primeiro Filme e Melhor Revelação Masculina para Pellerin.
Outros Festivais e Prêmios:
Semana da Crítica de Cannes 2025 (França) – Prêmio Estrela em Ascensão na Semana da Crítica e Prêmio do Público Valbonne
Prix d'Ornano-Valenti – Prêmio de Melhor Primeiro Filme Francês
Festival de Toronto TIFF 2025 (Canadá) |
Toronto International Film Festival 2025 (TIFF) | Platform Competition
Festival do Rio 2025




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