Crítica by Raphael Ritchie: ¨Um vendedor de móveis descobre um portal escondido dentro da própria loja e acaba entrando em um labirinto infinito formado por corredores vazios, escritórios silenciosos e salas que parecem existir completamente fora da realidade.
A partir dessa descoberta, a narrativa mergulha lentamente naquele universo estranho e desconfortável dos “Backrooms”, transformando espaços comuns em ambientes sufocantes que parecem engolir qualquer sensação de orientação ou estabilidade emocional.
O filme entende muito bem o fascínio visual que existe em torno dessa estética de lugares abandonados e artificiais, utilizando corredores intermináveis, iluminação fluorescente e ambientes corporativos desertos para criar um terror muito mais baseado em atmosfera e inquietação do que em sustos convencionais.
A ambientação dos anos 90 fortalece ainda mais essa experiência através das câmeras de mão, da textura crua da imagem e daquele aspecto analógico imperfeito que faz tudo parecer um registro perdido no tempo, aumentando constantemente a sensação de estranhamento.
Visualmente, tudo contribui para ampliar a desorientação dos personagens. Os enquadramentos apertados, as imagens tremidas e a iluminação artificial fazem com que o próprio espaço pareça vivo e hostil, enquanto a repetição daqueles corredores cria um desgaste psicológico contínuo.
O horror nasce menos da ameaça física e muito mais da sensação de aprisionamento, isolamento e perda gradual de identidade, principalmente quando a narrativa começa a explorar subtextos ligados a trauma e deterioração emocional.
Mesmo nos momentos em que o roteiro mergulha em algo mais abstrato e confuso, essa falta de lógica acaba funcionando dentro da experiência proposta pelo filme, já que a sensação constante é a de acompanhar personagens presos em um lugar impossível de compreender completamente.
Boa parte das imagens continua reverberando depois da sessão, especialmente porque o desconforto não desaparece quando o filme termina.
A atmosfera permanece inquietante justamente por abraçar esse vazio inexplicável que transforma os “Backrooms” em um espaço tão perturbador¨.
Existe um tipo de medo que não vem de monstros. Não tem sangue, não tem jumpscare, não tem ameaça visível. É um medo mais antigo, mais fundo, que nasce do silêncio de um corredor vazio, do zumbido constante de uma lâmpada de escritório, de um papel de parede que você sente que já viu em algum lugar, mas não consegue lembrar onde.
É o horror liminar: e ele está no centro de Backrooms: Um Não-Lugar, o longa de estreia do diretor Kane Parsons da A24 que chega aos cinemas nesta quinta, 28 de maio, com distribuição da Imagem Filmes.
Afinal, o que é horror liminar?
O termo vem da palavra "liminar", que designa o ponto de transição entre dois estados. Espaços liminares são, por definição, lugares de passagem: corredores de shopping abandonados, lobbies de hotéis fora de hora, estacionamentos cobertos e silenciosos. Ambientes criados pelo homem, esvaziados de sua função original e, portanto, de sentido.
Ao perderem o propósito, esses espaços passam a provocar uma sensação visceral de que algo ali está errado, sem que seja possível apontar exatamente o quê.
A força particular desse subgênero é que ele não assusta por revelar algo desconhecido, mas por distorcer o familiar. Em entrevista ao Los Angeles Times, Parsons descreveu o apelo desses espaços como "um presente que arma armadilhas com o passado, usando a nostalgia como isca".
Não é à toa que o fenômeno ressoa com tanta força em sua geração: as fotos digitais da infância, granuladas e mal iluminadas, têm exatamente a mesma textura das imagens que deram origem aos Backrooms. Esses ambientes acionam memórias afetivas que não pertencem a nenhum lugar específico, uma nostalgia sem endereço, um reconhecimento sem origem.
O cérebro tenta construir sentido a partir de um espaço que recusa sentido, e essa tensão produz angústia.
A visão de Kane Parsons
Mas Parsons enxerga nesse medo algo além da experiência individual. Na mesma conversa com o LA Times, ele conectou o horror liminar a uma ansiedade coletiva mais ampla:
"O mundo vai ficando cada vez menor. Você passa mais e mais tempo em menos lugares, lugares mais interiores. Isso produziu um mundo onde muitas pessoas estão expressando uma ansiedade de sentir que lhes falta um propósito, uma sensação de conexão com os vizinhos e com a natureza.
" Os espaços liminares, nessa leitura, não são apenas cenários perturbadores: são o reflexo físico de um isolamento que já se instalou muito antes de qualquer portal aparecer no porão de uma loja de móveis.
É exatamente nesse território que Backrooms: Um Não-Lugar acontece. No filme, Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis em crise silenciosa, descobre esse portal e é arrastado para um labirinto de ambientes de escritório que não deveriam existir.
Sua terapeuta, a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), vai atrás dele carregando traumas próprios, e os dois acabam confrontando, nas Backrooms, o isolamento que já os consumia do lado de fora.
Para o diretor, o horror liminar também é um sintoma de algo maior, cultural e coletivo. "Backrooms é por excelência aquilo que aproveitaria da nossa curiosidade e do nosso desejo de saber mais, de juntar significado a partir do que parece ser ruído aleatório", afirma.
"É sobre cair na toca do coelho e chegar a um lugar onde você percebe que existe uma crise que está afetando muito mais gente do que apenas o Clark. Está em todo lugar."
Com Backrooms: Um Não-Lugar, Parsons transforma esse pavor difuso em cinema, carregando para a tela grande um medo que já mora em nós bem antes de qualquer filme.
Com roteiro de Will Soodik (‘Westworld’), o elenco do longa-metragem é complementado por Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell. James Wan, Michael Clear, Roberto Patino, Shawn Levy, Dan Cohen, Dan Levine, Osgood Perkins, Chris Ferguson, Peter Chernin, Jenno Topping e Kori Adelson assumem a produção e Jeremy Cox a direção de fotografia.
Backrooms: Um Não-Lugar estreia em 28 de maio nos cinemas.
Ficha Técnica
Direção: Kane Parsons
Roteiro: Will Soodik
Baseado na série de Kane Parsons
Produção: James Wan, Michael Clear, Roberto Patino, Shawn Levy, Dan Cohen, Dan Levine, Osgood Perkins, Chris Ferguson, Peter Chernin, Jenno Topping, Kori Adelson
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell
Direção de Fotografia: Jeremy Cox
Direção de Arte: Danny Vermette
Montagem: Greg Ng, CCE
Figurino: Mica Kayde
Música: Edo Van Breemen e Kane Parsons



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