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CRÍTICA: ANATOMIA DO CAOS

Crítica by Raphael Ritchie: ¨Enquanto as sessões da CPI da Covid ocupavam horas de transmissões ao vivo e manchetes diárias, uma parte importante daquela engrenagem permanecia longe dos holofotes.



Entre reuniões, conversas de corredor, articulações políticas e momentos de tensão fora do plenário, a diretora Dandara Ferreira acompanha de perto os bastidores de uma das investigações parlamentares mais marcantes da história recente do país.

É justamente nesse acesso privilegiado que Anatomia do Caos encontra seu maior interesse. Para quem acompanhou aquele período de forma intensa, dificilmente os acontecimentos apresentados aqui serão novidade.

Os nomes, os depoimentos e muitos dos episódios centrais já fazem parte da memória coletiva recente. O diferencial está em observar como tudo acontecia internamente, acompanhando negociações, estratégias e relações que normalmente permanecem fora do alcance das coberturas jornalísticas tradicionais.



Dandara Ferreira opta por uma abordagem relativamente direta, evitando transformar os acontecimentos em espetáculo e permitindo que os próprios fatos conduzam a narrativa.

A câmera registra discussões, deslocamentos e momentos de bastidor com discrição, preservando a sensação de testemunho de um processo político em andamento.

Essa escolha reforça o valor documental do material e contribui para a construção de um registro que provavelmente ganhará relevância com o passar dos anos.



Ao mesmo tempo, o documentário não demonstra grande interesse em expandir os limites da linguagem ou propor uma estrutura particularmente sofisticada.

A condução permanece bastante convencional, sustentada principalmente pela força do acesso obtido e pela relevância histórica dos acontecimentos registrados.

Em alguns momentos, a experiência depende diretamente do envolvimento prévio do espectador com o tema, já que boa parte do impacto está ligada à familiaridade com aquele contexto.

Mais do que revelar informações inéditas ou alterar percepções já consolidadas, o longa funciona como um documento de época, preservando imagens e situações de um dos períodos mais turbulentos da história brasileira recente.




Como registro político e histórico, seu valor é evidente. Como experiência cinematográfica, permanece mais observacional do que reveladora¨.

O filme chega aos cinemas com distribuição da Descoloniza Filmes e relembra as omissões do governo de Jair Bolsonaro e a postura de parlamentares da extrema direita durante a pandemia que culminaram na morte de mais de 700 mil brasileiros.

A obra traça um panorama nacional de como decisões deliberadas e a falta de respostas adequadas diante de uma emergência sanitária global moldaram o cenário de crise em todo o país, revelando registros inéditos de bastidores de senadores que integravam a CPI e buscavam respostas, documentos e investigações que expõem as falhas estruturais na condução da crise.

Em abril de 2021, a diretora Dandara Ferreira decidiu ir a Brasília registrar os trabalhos da comissão em um momento de incerteza e medo. “O que me movia naquele momento era a percepção de que o país atravessava algo maior do que uma crise sanitária. Havia uma disputa brutal em torno da própria realidade”, afirma ela.



Para a realizadora, a CPI da Covid surge no documentário como o palco de uma tragédia nacional, um teatro político.

O filme explora como o discurso oficial produziu uma confusão deliberada e colocou a ciência em xeque. “Não se tratava apenas de negligência. Havia uma construção de uma narrativa em curso, uma política da desinformação que transformava a morte em estatística e a dor coletiva em deboche”, pontua a cineasta, “Anatomia do Caos” também aborda uma questão recorrente nos processos de CPIs no país: a impunidade ao final dos trabalhos.

Segundo a diretora, o documentário não busca apenas revisitar o passado, mas questionar o presente e o que significa seguir adiante sem justiça ou responsabilização. “Esse filme nasce da necessidade pessoal de registrar esse período e da certeza de que algumas imagens precisam continuar abertas, porque elas ainda nos olham de volta”, conclui.

O lançamento de “Anatomia do Caos” será marcado por um amplo circuito de exibições seguidas de debate, com a presença da diretora, reforçando o papel do filme como um espaço de diálogo e reflexão coletiva sobre a história recente do Brasil.

As sessões especiais estão previstas em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Recife, Curitiba, Salvador, Brasília e Fortaleza, permitindo que o público discuta a memória da pandemia e a necessidade de justiça.





SINOPSE
Com acesso inédito ao Senado, a diretora Dandara Ferreira acompanha de dentro a trajetória completa da CPI da Covid-19 e transforma esse material exclusivo em um registro cinematográfico de um dos momentos mais marcantes da Pandemia no Brasil.

FICHA TÉCNICA
Direção: Dandara Ferreira
Roteiro: Dandara Ferreira e Élcio Verçosa Filho
Produção Executiva: Amadeu Alban, Dandara Ferreira, Gabriel Pires, Marcio Yatsuda
Direção de Fotografia: Roberto Stuckert
Montagem: Lara Beck, Renato Sircilli
Trilha Sonora Original: Fabrício Modesto
Correção de Cor: Júnior Xis
Produção: Movioca Content House, Las Margaridas, LabAV

SOBRE A DIRETORA DANDARA FERREIRA

É diretora e roteirista, formada em Cinema pela FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e doutoranda em Comunicação Social pela UnB. Dirigiu a série “O Nome Dela É Gal” (HBO) e realizou curtas-metragens, filmes publicitários e videoclipes de artistas como Fagner (“Tanto Faz”), Ricky Martin feat. Dream Team do Passinho (“Vida”) e Vanessa da Mata (“Segue o Som”), entre outros.

Em 2023, lançou seu primeiro longa-metragem, “Meu Nome É Gal”, no qual atua como diretora e atriz.

Atualmente, finaliza o documentário “Vou Tirar Você Desse Lugar”, sobre a trajetória e a obra de Odair José, e está prestes a lançar “Anatomia do Caos”, sobre a gestão de Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19 no Brasil

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