Crítica by Raphael Ritchie: ¨Nino e Yasmina tentam construir uma vida juntos enquanto o país ao redor parece se mover em direção à incerteza.
Cada plano compartilhado, cada expectativa de futuro e cada gesto de afeto acabam atravessados por uma realidade que impõe perguntas práticas sobre permanência, segurança e sobrevivência, transformando uma história de amor em algo inseparável do contexto em que ela acontece.
A relação entre os dois ocupa o centro da narrativa, mas nunca se fecha em si mesma. As dificuldades enfrentadas pelo Líbano surgem incorporadas ao cotidiano dos personagens, influenciando decisões que poderiam parecer exclusivamente íntimas em circunstâncias diferentes.
O interesse do filme está justamente na maneira como conecta dimensões coletivas e individuais sem estabelecer fronteiras rígidas entre elas. Amar alguém passa a significar também negociar expectativas, lidar com o medo do futuro e refletir sobre o próprio pertencimento.
Essa aproximação torna os conflitos particularmente acessíveis. A narrativa acompanha pessoas comuns tentando encontrar estabilidade em um ambiente marcado pela instabilidade, e é dessa tensão constante que nasce grande parte do envolvimento emocional da história.
Mesmo quando a incerteza se impõe, a direção preserva espaços para a leveza, para o humor e para momentos de ternura que impedem que o drama seja reduzido apenas ao peso das circunstâncias.
Em Um Triste e Belo Mundo, a ambientação exerce um papel decisivo. A ligação dos personagens com o lugar onde vivem é apresentada de forma concreta, tornando muito mais complexa qualquer possibilidade de partir.
A fotografia reforça essa dimensão ao destacar simultaneamente a beleza dos espaços e as marcas de uma realidade fragilizada, criando imagens que dialogam diretamente com a dualidade sugerida pelo título.
Sem recorrer a idealizações românticas, o filme entende que o amor não elimina impasses nem oferece respostas simples. As escolhas dos protagonistas permanecem difíceis justamente porque envolvem desejos legítimos em direções diferentes.
Dessa forma, a dimensão política da narrativa surge integrada à experiência humana dos personagens, aproximando temas amplos da escala íntima da vida cotidiana e resultando em um drama romântico sensível, envolvente e atento às contradições de seu tempo¨.
Narrado com uma energia visual pulsante que percorre encontros e desencontros ao longo de três décadas, “Um triste e belo mundo” arrebatou o Festival de Veneza 2025 e conquistou o prêmio do público na Jornada dos Autores.
O filme chega aos cinemas brasileiros em 25 de junho, com distribuição exclusiva da Pandora Filmes.
É o primeiro longa-metragem de ficção do libanês Cyril Aris, que também assina o roteiro ao lado de Bane Fakih. Antes, Aris havia lançado um curta-metragem, “The President's Visit”, em 2017; e dois longas documentais: “The Swing”, em 2018, e “Dancing Above the Volcano”, em 2023. “Um triste e belo mundo” foi selecionado como a indicação oficial do Líbano ao Oscar 2026.
O début de Aris foi saudado pela crítica internacional, sobretudo pela química indiscutível entre os protagonistas, Mounia Akl e Hasan Akil, e pela destreza do diretor ao conduzir os personagens na dança do destino, da infância à idade adulta, sem cansar o espectador. Não à toa, o filme coleciona 16 prêmios internacionais e uma extensa carreira em festivais.
“As atuações carismáticas e a sintonia entre Akl e Akil não deixam dúvidas de que Yasmina e Nino foram feitos um para o outro. Os olhares prolongados e os momentos de humor desarmam a plateia e reforçam o clima romântico – mas por isso mesmo os personagens secundários, incluindo a formidável mãe de Yasmina e o temperamental chef de Nino, Chafic, são um ótimo contraponto, ilustrando uma tensão crescente”, destacou a Screen International.
Já o francês Le Figaro cravou: “Evocando a memória do Líbano, outrora apelidado de ‘a Suíça do Oriente Médio’, o filme transita habilmente entre diferentes épocas, utilizando elipses e flashbacks com grande efeito, tecendo uma narrativa onde o pessoal se entrelaça com o coletivo – e se consolidando como uma joia do cinema libanês”.
Um Triste e Belo Mundo (A Sad and Beautiful World)
2025, 109 min, drama, romance, comédia
Líbano / Estados Unidos / Alemanha / Arábia Saudita / Catar
Direção: Cyril Aris
Elenco: Mounia Akl, Hasan Akil, Julia Kassar, Camille Salameh, Tino Karam, Nadyn Chalhoub
Sinopse: Em uma história de amor que se estende por três décadas, marcada por paixão, rupturas e esperança, Nino e Yasmina se veem atraídos por uma relação intensa e magnética.
Diante disso, precisam decidir se querem construir uma família e trilhar um caminho rumo à felicidade, apesar das tensões do Líbano contemporâneo.








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