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CRÍTICA: AS CORRENTES

Crítica by Rapahel Ritchie: ¨Lina chega a Genebra para receber um dos maiores reconhecimentos de sua carreira. Tudo indica que ela alcançou o lugar pelo qual trabalhou durante anos, mas um episódio perturbador altera completamente sua percepção da realidade e transforma a água em uma presença constante de medo e inquietação.



A partir desse ponto, sua vida passa a ser atravessada por uma crise que afeta tanto sua estabilidade emocional quanto a imagem de sucesso que parecia sustentar sua trajetória.

Em As Correntes, a água assume um papel que vai muito além de sua materialidade. Ela se torna um símbolo de vulnerabilidade, de perda de controle e de tudo aquilo que emerge quando as certezas deixam de oferecer proteção.

O reconhecimento profissional, que deveria representar um momento de plenitude, funciona como o gatilho para que questões reprimidas venham à superfície, revelando a fragilidade de uma identidade construída sobre expectativas, conquistas e aparências.



A diretora conduz essa transformação por meio de uma abordagem profundamente subjetiva, interessada menos em explicar os acontecimentos do que em acompanhar as sensações da protagonista.

Silêncios prolongados, diálogos econômicos e uma observação cuidadosa dos espaços criam uma atmosfera contemplativa que procura traduzir visualmente o desconforto crescente vivido por Lina.

Há um evidente cuidado na composição das imagens e na maneira como os ambientes refletem seu estado emocional, reforçando o caráter intimista da narrativa.




Essa proposta, porém, encontra seus próprios limites. O ritmo deliberadamente lento dialoga com os temas de esgotamento psicológico e crise existencial, mas diversas sequências permanecem em cena além do necessário, enfraquecendo a progressão dramática.

Em alguns momentos, a contemplação deixa de ampliar os conflitos e passa a gerar uma sensação de estagnação que dificulta o envolvimento emocional. A abertura para múltiplas interpretações enriquece determinadas passagens, mas a ausência de direcionamentos mais consistentes também contribui para um certo distanciamento.

Ainda que apresente reflexões interessantes sobre identidade, sucesso e transformação pessoal, As Correntes nem sempre encontra equilíbrio entre sua ambição simbólica e a necessidade de sustentar dramaticamente sua jornada.




O resultado é um filme visualmente cuidadoso e conceitualmente instigante, mas que exige mais paciência do que consegue recompensar¨.

As Correntes, novo longa da diretora Milagros Mumenthaler, estreia em 18 de junho nos cinemas brasileiros, com distribuição da Filmes do Estação. Cineasta argentina-suíça reconhecida por um cinema de forte sensibilidade emocional, personagens femininas complexas e narrativas íntimas, Mumenthaler retorna com uma obra de atmosfera enigmática, centrada nas fissuras silenciosas entre aparência, desejo e colapso.

O filme chega ao circuito brasileiro após passagem pelo Festival do Rio, onde foi exibido na mostra Première Latina e venceu o Prêmio do Público da seção, reforçando sua conexão com a audiência.




Lina, uma estilista bem-sucedida, volta de uma viagem internacional com um segredo, uma fobia e uma vida prestes a transbordar.

Em As Correntes, Lina, uma estilista argentina de 34 anos no auge da carreira, viaja à Suíça para uma cerimônia de premiação. Depois de um impulso súbito, ela se joga no rio Ródano.

De volta a Buenos Aires, não conta a ninguém o que aconteceu, mas algo dentro dela mudou. De forma silenciosa, uma fobia à água começa a reorganizar sua rotina, seus vínculos e a imagem de controle que ela construiu ao redor de si.

Mais do que um retrato do colapso, As Correntes é um filme sobre imagem, desencaixe e dissociação. Com sua narrativa oblíqua e sua elaborada paisagem sonora, o longa dialoga com a tensão sensorial de A Mulher sem Cabeça, de Lucrecia Martel, e com o retrato de dissociação feminina de Safe, de Todd Haynes, construindo uma experiência singular sobre deslocamento, identidade e instabilidade emocional.

A força do filme está justamente no contraste entre sofisticação e vertigem, entre o mundo visível e as zonas invisíveis da subjetividade. Ao acompanhar Lina em seu processo de afastamento da vida que conhecia como mulher, mãe, artista e figura pública, Mumenthaler constrói um instigante quebra-cabeça existencial, marcado por delicadeza formal e profunda interioridade psicológica.

Dirigido e escrito por Milagros Mumenthaler, As Correntes confirma a cineasta como uma das vozes mais sensíveis do cinema contemporâneo latino-americano e europeu.

Seu primeiro longa, Abrir Puertas y Ventanas, recebeu o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, marco importante de sua trajetória internacional.

As Correntes estreia em 18 de junho nos cinemas, com distribuição da Filmes do Estação.

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