¨Anthony atravessa aquele verão de 1992 como alguém que ainda acredita que a vida vai começar de verdade em algum momento muito próximo, enquanto divide os dias entre paixões mal resolvidas, amizades instáveis e a sensação silenciosa de que o mundo ao redor dele já parece pequeno demais antes mesmo da vida adulta chegar.
O mais bonito na maneira como a narrativa acompanha esses quatro verões é justamente perceber como pequenas mudanças de comportamento, olhares e ausências acabam revelando um amadurecimento dolorosamente natural, quase como se aqueles personagens fossem entendendo aos poucos que crescer nem sempre significa avançar.
A relação entre Anthony e Hacine ajuda muito nessa construção porque o filme entende perfeitamente como admiração, rivalidade e afeto conseguem coexistir durante a adolescência sem nunca precisarem ser explicados diretamente.
Existe uma espontaneidade muito forte na forma como eles se aproximam e se afastam, como se cada encontro carregasse ao mesmo tempo amizade, ciúme e a tentativa constante de afirmar alguma identidade dentro daquele ambiente economicamente sufocado onde todos parecem presos entre o desejo de ir embora e o medo de descobrir que talvez não exista nada muito diferente esperando lá fora.
A direção trabalha essa melancolia de maneira muito observacional, acompanhando festas, romances, conversas despretensiosas e pequenos conflitos cotidianos com uma câmera que parece registrar memórias antes mesmo que elas desapareçam.
Isso faz com que o longa encontre uma honestidade rara dentro do coming of age, principalmente porque nunca transforma aqueles jovens em versões idealizadas da juventude.
Eles erram, exageram sentimentos, tomam decisões impulsivas e atravessam relações emocionais e sexuais que talvez soem precoces dentro de uma realidade brasileira, mas que conversam bastante com aquele retrato específico da juventude francesa dos anos 90.
E Seus Filhos Depois Deles encontra força justamente nesses momentos aparentemente comuns, entendendo que a adolescência quase sempre é feita muito mais de verões passageiros, frustrações discretas e expectativas silenciosas do que de grandes acontecimentos transformadores.
Quando o filme termina, fica aquela sensação agridoce de lembrar pessoas e lugares que pareciam enormes durante a juventude, mas que aos poucos foram ficando pequenos conforme o tempo passou¨.
SINOPSE
Agosto de 1992. O adolescente Anthony e seu primo matam o tédio à beira do lago.
Eles vivem em um vale esquecido no leste da França, onde circulam entre as ruínas das fábricas da cidade outrora industrial que seus pais conheceram.
O encontro casual com uma menina mais velha, Steph, desperta o primeiro amor de verão que irá definir tudo.
É um momento agridoce na vida de Anthony, marcando o fim da infância e o seu amadurecimento. Prêmio Revelação para o ator Paul Kircher Veneza 2024.
Ficção/Fiction
Cor/Color 144'
França - 2024
Direção/Direction:
THE BOUKHERMA BROTHERS
Roteiro/Screenplay:
LUDOVIC BOUKHERMA
ZORAN BOUKHERMA
Empresa Produtora/Production Company:
TRéSOR FILMS
CHI-FOU-MI PRODUCTIONS
Produção/Production:
ALAIN ATTAL
HUGO SéLIGNAC
Direção de Arte/Art Direction:
JéRéMIE DUCHIER
Fotografia/Photography:
AUGUSTIN BARBAROUX
Montagem/Editing:
GéRALDINE MANGENOT
Elenco/Cast:
PAUL KIRCHER
ANGéLINA WORETH
SAYYID EL ALAMI
LOUIS MEMMI
LUDIVINE SAGNIER
GILLES LELLOUCHE







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