Crítica by Raphael Ritchie: Um garoto do interior atravessa a cidade grande tentando encontrar algum tipo de afeto enquanto circula por ruas iluminadas por néons frios, apartamentos estranhos e encontros que parecem sempre carregar uma ameaça silenciosa no fundo da cena.
Ao mesmo tempo, jovens começam a desaparecer enquanto um serial killer transforma esse ambiente urbano numa espécie de território permanentemente inseguro, onde desejo e violência passam a ocupar o mesmo espaço emocional.
Labirinto dos Garotos Perdidos mergulha nessa atmosfera com uma direção que aposta quase o tempo inteiro numa lógica de sonho febril, transformando a cidade num labirinto emocional onde tudo parece artificial demais para ser totalmente real, mas desconfortavelmente íntimo para soar apenas fantasioso.
A fotografia noturna funciona muito bem nesse aspecto, principalmente na maneira como as luzes coloridas, os corredores vazios e os ambientes urbanos criam uma sensação constante de deslocamento, como se os personagens estivessem presos dentro de uma fábula urbana melancólica e decadente.
Essa abordagem mais abstrata funciona em vários momentos porque o longa entende muito bem a potência visual que existe nessa experiência queer atravessada por solidão, cruising e pertencimento, usando os encontros do protagonista menos como progressão narrativa e mais como estados emocionais fragmentados.
Só que essa insistência em permanecer no campo do simbólico acaba tornando a experiência frequentemente mais confusa do que envolvente, como se o filme estivesse tão interessado em preservar sua estranheza que esquecesse de organizar melhor as próprias ideias.
Muitas cenas parecem existir apenas pela sensação que desejam provocar, e embora algumas realmente consigam criar imagens fortes e desconfortáveis, boa parte da narrativa perde impacto justamente pela dificuldade de transformar toda essa atmosfera em envolvimento emocional concreto.
As atuações também dificultam essa imersão em alguns momentos importantes, principalmente porque vários personagens parecem excessivamente travados dentro de diálogos artificiais, o que enfraquece relações que deveriam carregar mais peso afetivo.
Ainda assim, existe personalidade suficiente na construção visual para impedir que o filme se torne totalmente descartável.
A direção claramente possui ambição estética e algumas imagens permanecem na memória mais pela textura emocional do que pela narrativa em si, embora fique a sensação de que toda essa proposta funcionaria muito melhor se encontrasse uma forma menos difusa de conduzir suas próprias ideias¨.
Conhecida por sua curadoria dedicada ao cinema autoral no streaming, a FILMICCA dá um novo e decisivo passo em sua trajetória ao expandir sua atuação para as salas de cinema. Após levar às telas obras icônicas de Chantal Akerman, a plataforma agora aposta em um longa-metragem brasileiro: LABIRINTO DOS GAROTOS PERDIDOS, de Matheus Marchetti.
Com estreia agendada para 4 de junho, o filme marca o primeiro lançamento nacional da plataforma no circuito exibidor.
Fundada em 2021, a FILMICCA é um espaço de descoberta e valorização de obras independentes, conectando o público a filmes clássicos e contemporâneos por meio de uma curadoria criteriosa. Agora, ao levar esse olhar também para as salas de cinema, a empresa tem buscado ampliar o alcance dessas obras e reforçar seu compromisso com o cinema autoral.
Exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde teve sua estreia mundial, LABIRINTO DOS GAROTOS PERDIDOS acompanha um jovem do interior que se perde na madrugada da cidade grande e mergulha em uma jornada marcada por encontros inesperados, desejo, perigo e uma atmosfera crescente de tensão. Enquanto explora esse universo de relações e descobertas, um assassino espreita pelas sombras da metrópole.
Misturando elementos de romance, horror e suspense, o longa dialoga com diferentes tradições do cinema de gênero e constrói uma narrativa que é ao mesmo tempo sensorial e provocadora.
O próprio diretor define a obra como uma espécie de fábula contemporânea, que atravessa referências e linguagens para criar uma experiência singular.
Ficha Técnica
2025 | Brasil | 82 minutos | 16 anos
Direção: Matheus Marchetti
Roteiro: Matheus Marchetti
Fotografia: João Paulo Belentani, Davi Krasilchik
Montagem: Matheus Marchetti
Som: Mazum
Desenho de som: Cauê Custódio
Música: André Zappalenti, Edain, Lucas Higashi, Nicolas Stenzel, Giuliano Garutti
Direção de arte: Isabela Besen
Elenco: Giuliano Garutti, Lucas Bocalon, Henrique Natálio, Gabriel Muglia, Julio Mourão, Matheus Marchetti, Tuna Dwek, Gabriela Gonzalez, Gustavo Brait, Igor Patrocínio, Tony Germano, Luan Lessa
Produção: Yuri Célico
Produzido por: Cine Reviva
SINOPSE
Um garoto do interior se perde na madrugada da cidade grande, passando por uma série de encontros sexuais progressivamente bizarros, enquanto um assassino espreita pelas sombras da metrópole.
Exibido na Mostra de São Paulo, o novo filme do cineasta brasileiro Matheus Marchetti acompanha um jovem numa jornada de autodescoberta, desejos e mistérios. Uma fábula urbana sedutora e mortal.







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