Crítica by Raphael Ritchie: ¨Há personagens que parecem ter atravessado décadas inteiras acumulando histórias demais para caberem em uma única versão dos fatos. Ezequiel Neves pertence exatamente a essa categoria.
Ator, jornalista, produtor musical e presença constante nos bastidores de momentos importantes da cultura brasileira, ele surge aqui não apenas como protagonista, mas como ponto de partida para uma reflexão sobre memória, narrativa e a forma como transformamos pessoas reais em figuras quase míticas.
A escolha de reconstruir sua trajetória por meio de entrevistas, arquivos históricos, recriações e materiais produzidos com inteligência artificial reforça essa proposta desde os primeiros minutos.
Em vez de organizar uma linha do tempo rígida, a narrativa prefere circular entre relatos, versões e contradições, permitindo que cada nova informação amplie a curiosidade sobre alguém cuja reputação sempre esteve cercada por episódios difíceis de confirmar plenamente.
Nesse sentido, Ninguém Pode Provar Nada: A Inacreditável História de Ezequiel Neves encontra um caminho interessante ao apresentar uma personalidade que talvez seja pouco conhecida por parte do público mais jovem, especialmente por aqueles que reconhecem nomes como Rita Lee e Cazuza, mas não necessariamente as figuras que ajudaram a construir os bastidores daquele universo.
O documentário funciona tanto como introdução a um personagem fascinante quanto como retrato de um período específico da música brasileira marcado por transformações culturais, excessos e relações criativas que ajudaram a moldar o cenário artístico do país.
O aspecto mais envolvente está justamente nessa observação do contexto. A convivência entre música, jornalismo e comportamento revela uma época em que esses universos se cruzavam de maneira intensa, oferecendo um panorama rico sobre o funcionamento da indústria cultural brasileira.
A trajetória individual de Ezequiel frequentemente se mistura à história de um ambiente inteiro, e é nesse movimento que o film e desperta maior interesse.
Ao mesmo tempo, a estrutura investigativa nem sempre aprofunda seu protagonista na mesma medida em que explora as histórias ao redor dele. A constante brincadeira entre fato e invenção mantém a atenção do espectador, mas em alguns momentos a discussão sobre a construção das narrativas parece mais estimulante do que o retrato pessoal de Ezequiel Neves.
Ainda assim, há valor nessa escolha. O documentário acaba registrando um recorte cultural importante, preservando personagens, histórias e dinâmicas de uma geração que deixou marcas profundas na música e na comunicação brasileiras. Mais do que responder quem foi Ezequiel Neves, o filme ajuda a compreender o mundo que tornou possível a construção de sua lenda¨.
O docuficção faz sua estreia em São Paulo no 18º In-Edit Brasil, festival internacional de documentários musicais que acontece de 17 a 28 de junho, participando da competição nacional.
O longa terá três sessões na cidade.
No dia 21 de junho, às 15h, a exibição será na sala Grande Otelo da Cinemateca Brasileira, seguida de debate com diretor e equipe do filme. Já no dia 27 de junho, a exibição será no Cinesesc, às 18h.
O circuito paulistano fecha no dia 28 de junho na sala Paulo Emilio do Centro Cultural São Paulo, às 19h30min.



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