Crítica by Raphael Ritchie: ¨Dois ex amantes se reencontram depois de muitos anos carregando entre eles muito mais do que a lembrança de um relacionamento interrompido.
O que surge desse encontro não é exatamente a tentativa de recuperar um amor perdido, mas a necessidade de encarar uma dívida emocional que permaneceu, alimentada por culpa, gratidão, arrependimento e pela consciência de que certas escolhas continuam produzindo consequências muito tempo depois de serem feitas.
A relação entre os protagonistas é atravessada por sentimentos difíceis de separar. O afeto que ainda existe caminha lado a lado com a responsabilidade que um sente pelo outro, criando uma dinâmica que constantemente desloca a narrativa para além dos limites de um romance convencional.
Cada conversa parece carregar o peso de algo que nunca foi completamente resolvido, enquanto ambos tentam compreender o que restou de uma decisão capaz de alterar suas vidas de forma definitiva.
Essa melancolia acompanha toda a trajetória de O Sol Nasce Para Todos, especialmente quando a história se concentra na maneira como culpa e gratidão podem assumir contornos semelhantes.
Em vez de funcionarem como sentimentos libertadores, ambos se transformam em vínculos difíceis de romper, mantendo os personagens presos a um passado que continua determinando suas escolhas no presente.
A direção adota um ritmo contemplativo e bastante paciente, apoiando grande parte da narrativa em silêncios, observação e diálogos intimistas. As cenas se estendem sem pressa, permitindo que emoções e conflitos sejam revelados gradualmente.
Essa abordagem favorece o mergulho emocional proposto pela história, embora também possa afastar espectadores que esperam acontecimentos mais frequentes ou uma progressão dramática mais dinâmica.
Quando concentra sua atenção nas marcas deixadas pelo sacrifício e nas diferentes formas de convivência com o arrependimento, o longa alcança seus momentos mais interessantes.
Menos preocupado em desenvolver uma trama tradicional e mais interessado em observar duas pessoas tentando encontrar algum tipo de paz diante daquilo que já não pode ser desfeito, o filme oferece um estudo emocional delicado, ainda que nem sempre envolvente o suficiente para sustentar sua duração e seu ritmo cadenciado¨.
“O Sol Nasce para Todos” (“The Sun Rises On Us All”), dirigido por Shangjun Cai e estrelado por Zhilei Xin - que recebeu por sua interpretação o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza de 2025 -, chega aos cinemas nesta quinta-feira (25).
Um dos filmes mais surpreendentes do circuito de festivais internacionais no ano passado estreia em salas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília com distribuição da Synapse Distribution.
A produção acompanha o ex-casal Meiyun (Zhilei Xin) e Baoshu (Songwen Zhang), que foi separado pelas circunstâncias da vida, mas unido para sempre por um segredo devastador após ele assumir a culpa por um crime cometido por ela. Assim que retorna à liberdade, Baoshu é colocado diante de uma realidade dura e desencantada, enquanto antigas feridas e sentimentos mal resolvidos voltam à tona.
Mesmo distantes, os dois percebem que seus caminhos continuam conectados, em uma relação marcada por culpa, amor e tudo aquilo que o tempo nunca conseguiu apagar.
O filme fez sua estreia mundial no Festival de Veneza, seguindo com exibições de sucesso nos festivais de Toronto (TIFF) e de Busan, na Coreia do Sul, ressaltando a performance de Zhilei Xin como um dos grandes destaques da temporada.
Ficha técnica:
2025 - drama
Direção: Shangjun Cai
Elenco: Zhilei Xin, Songwen Zhang, Shaofeng Feng



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