CRÍTICA BY RAPHAEL RITCHIE: ¨Entre cantos, folhas, águas e terreiros, a câmera atravessa espaços sagrados do Candomblé em Cachoeira sem qualquer interesse em traduzir tudo para quem observa de fora.
O percurso acontece pela música, pelo ritmo dos corpos, pela oralidade e pela permanência daqueles rituais dentro de uma memória coletiva atravessada por resistência cultural, espiritualidade e sobrevivência histórica.
Em vez de organizar depoimentos dentro de uma estrutura mais tradicional, o documentário prefere permanecer dentro da experiência, acompanhando cerimônias e encontros comunitários com uma abordagem contemplativa que transforma cada canto em continuidade ancestral.
A música ocupa o centro da narrativa durante praticamente todo o tempo, não apenas preenchendo cenas, mas conduzindo emocionalmente cada espaço registrado pela direção.
Os cânticos carregam a dimensão religiosa do filme e ajudam a criar uma conexão muito forte entre espiritualidade, natureza e pertencimento, especialmente na maneira delicada com que aquelas pessoas falam sobre fé e ancestralidade sem transformar suas vivências em discurso explicativo ou acadêmico.
Existe uma honestidade muito bonita nesse olhar interessado em observar a relação entre memória e permanência cultural sem reduzir aquelas práticas a simples material de estudo.
Ao mesmo tempo, a experiência cobra bastante envolvimento do espectador.
A ausência de contextualizações mais objetivas faz com que muitos símbolos, termos e referências permaneçam distantes para quem não conhece profundamente as religiões de matriz africana, criando momentos em que a narrativa parece abstrata demais e até dispersa.
A escolha por acompanhar longos trechos musicais e ritualísticos fortalece a atmosfera espiritual do documentário, mas também limita parte da aproximação emocional para quem procura algum tipo de condução mais clara dentro daquele universo.
Ainda assim, existe valor na maneira respeitosa com que o filme registra tradições atravessadas por intolerância religiosa, apagamentos históricos e violência cultural, transformando música, oralidade e espiritualidade em registros vivos de continuidade histórica.
Pontos de Força permanece mais interessante enquanto experiência sensorial do que propriamente enquanto construção narrativa, funcionando muito mais pela imersão do que pela elaboração cinematográfica¨.
Pontos De Força
Vânia Lima | Brasil | 2026 | 78’
Mateus Aleluia nos guia por lugares sagrados do Candomblé em Cachoeira (BA).
Aqui, ele realiza uma profunda imersão em uma das regiões em que o diálogo entre a ancestralidade e a (re)existência se estabelece de maneira intensa.
No registro sensível da diretora Vânia Lima, fé, conexão com a natureza e a memória dos antepassados se traduzem em música.







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