Post Page Ads

Post Page Top Ads

CRÍTICA: ECOS DO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO

Crítica by Raphael Ritchie: ¨Poucas imagens sintetizam tão bem a exclusão histórica da população negra nos palcos brasileiros quanto a de um ator branco pintado de preto interpretando um protagonista negro.




Foi justamente esse choque que levou Abdias Nascimento a transformar indignação em ação, criando uma companhia que não apenas reivindicava espaço para artistas negros, mas também questionava quem tinha o direito de representar o Brasil em seus principais espaços culturais.

Essa trajetória ocupa o centro de Ecos do Teatro Experimental do Negro, documentário que recupera a história do grupo desde sua estreia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945, enquanto amplia o olhar para a dimensão política, educacional e artística do projeto.

O material de arquivo, os depoimentos e a presença de nomes fundamentais, entre eles Ruth de Souza, Léa Garcia e Haroldo Costa, ajudam a demonstrar que o Teatro Experimental do Negro jamais foi apenas uma companhia teatral. Tratava se de uma resposta organizada a um sistema que restringia oportunidades, personagens complexos e reconhecimento institucional a uma parcela muito específica da sociedade.




O interesse do documentário cresce à medida que evidencia que essa exclusão nunca esteve relacionada à ausência de talento, mas às barreiras impostas pela própria estrutura cultural brasileira. Ao acompanhar as trajetórias desses artistas, torna se evidente que a presença negra no teatro, no cinema e na televisão das décadas seguintes também passa por esse movimento de formação e resistência, cuja influência permanece perceptível ainda hoje.

Ao mesmo tempo, a narrativa prefere preservar um tom celebratório durante boa parte de sua duração, dedicando menos espaço às contradições, conflitos internos e dificuldades que inevitavelmente acompanharam a consolidação de um projeto dessa dimensão.

A relevância histórica do tema sustenta o interesse, mas o documentário raramente transforma essa complexidade em uma investigação cinematográfica igualmente instigante, priorizando a organização dos fatos em vez de aprofundar as tensões que atravessaram essa experiência.




Ainda assim, recuperar essa memória significa também enfrentar um apagamento persistente da história cultural brasileira e reconhecer que muitas das discussões atuais sobre representatividade começaram muito antes de ganharem espaço no debate público. Entre o registro histórico e a homenagem, o filme preserva um legado cuja reverberação permanece impossível de ignorar¨.

Chega aos cinemas no dia 23 de julho “Ecos do Teatro Experimental do Negro”, documentário de Daniel Santiago que busca iluminar o legado de Abdias Nascimento, ator, intelectual, ativista e uma das pedras fundamentais da luta pela valorização da cultura afro-brasileira.

A Pandora Filmes assina a distribuição exclusiva.

Em São Paulo, haverá Premiére SPCine aberta ao público, na terça-feira (21.07). No Rio de Janeiro também haverá sessão especial de pré-estreia, na quarta (22.07), em parceria com o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro).




O Teatro Experimental do Negro foi criado em 1944, tendo sido idealizado, fundado e dirigido por Nascimento. A proposta de ação do TEN englobava cidadania e conscientização racial: ao recrutar seu elenco, o TEN tinha, como público alvo, pessoas oriundas do operariado, empregadas domésticas e pessoas sem profissão definida, segundo documentos catalogados pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros (Ipeafro), sediado no Rio de Janeiro.

Para além da dramaturgia como meio de conscientização, o TEN desempenhou atividades de caráter social e artístico. Realizou cursos de alfabetização para que seus integrantes pudessem dominar a leitura para poder ensaiar.

Os cursos noturnos abordavam também conhecimentos gerais e culturais, em aulas que se realizavam no restaurante do prédio da União Nacional dos Estudantes (UNE), na Praia do Flamengo, e eram coordenadas por Abdias e ministradas por ele, Ironides Rodrigues e Aguinaldo Camargo.




O filme ressalta o papel fundamental do TEN tanto na evolução do teatro moderno no Brasil quanto na afirmação da identidade negra nas artes e na esfera pública. Vale lembrar que, até então, personagens negros eram representados por atores e atrizes brancos utilizando a técnica do “blackface”, maquiagem negra sobre a pele clara. A atuação do TEN alcançou também outros palcos, revelando a militância e o engajamento feminino nas lutas contra a discriminação.

“Conheci Abdias em junho de 1978. Na época, ele tinha 64 anos. Eu, 34. Cabelos grisalhos, voz forte e postura determinada, o mestre ali estava para importante momento na vida dos negros brasileiros: a fundação do MNU (Movimento Negro Unificado), sigla sugerida pelo próprio Abdias. Eu nunca esqueci aquele encontro”, conta o diretor, Daniel Santiago.

O documentário entrelaça trechos das peças do TEN com depoimentos de atores e atrizes negros que passaram ou foram influenciados pelo movimento - como Ruth de Souza, Léa Garcia, Aílton Graça, Lázaro Ramos e Taís Araujo. “Com a peça ‘Imperador Jones’, de Eugene O'Neill, o TEN chegou ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945.

Foi o primeiro elenco negro a alçar a ribalta daquele nobre espaço. O filme revela ao grande público a existência de numerosos grupos no Brasil que se dedicam à problematização das formas de representação cênica do negro desde esse marco importantíssimo”.


Referência internacional na causa pan-africanista – movimento mundial de reparação dos povos africanos colonizados – Abdias, entre outras conquistas, foi indicado ao Nobel da Paz em 2009, além de ser um dos precursores de políticas públicas como as cotas raciais, a criminalização do racismo e a instituição do feriado nacional da Consciência Negra.


SINOPSE

O documentário “Ecos do Teatro Experimental do Negro” lança um olhar contemporâneo sobre a presença negra nas artes brasileiras. O roteiro utiliza a encenação de peças históricas do TEN, fundado por Abdias Nascimento, como fio condutor narrativo. Unindo performances clássicas a depoimentos de artistas influenciados pelo movimento, a obra revela a resistência contra o blackface e a evolução do teatro negro, conectando o legado de 1944 aos coletivos atuais.


FICHA TÉCNICA

Estado: São Paulo

Direção: Daniel Santiago

Ano de Produção: 2025

Duração: 119 minutos

Produção: Daniel Santiago por DSS Produções

Distribuidora: Pandora Filmes


Direção: Daniel Santiago

Direção de Fotografia: Cleumo Segond

Montagem: Cristina Amaral

Som Direto: Paulo Ricardo Medeiros de Andrade e Juliana Alves Santana

Edição Sonora: Pedro Santiago, Adriana Norat e Roney Giah.

Mixagem: Roney Giah

Trilha Sonora: Henrique Band e José Prates

Postar um comentário

0 Comentários