Crítica by Raphael Ritchie: ¨Preso, torturado e desaparecido pela ditadura militar brasileira aos 26 anos, Honestino Guimarães permanece sem que seu corpo tenha sido encontrado, transformando sua trajetória em um símbolo de uma violência de Estado que ainda resiste ao esquecimento.
Em vez de reconstruir essa história por meio de uma cinebiografia convencional, o longa opta por reunir imagens de arquivo, depoimentos, cartas, poemas e pequenas dramatizações que tentam preencher os vazios deixados justamente pela ausência de registros e pelas marcas do apagamento institucional.
Essa combinação aproxima Honestino muito mais do documentário do que da ficção. As cenas encenadas surgem de maneira pontual, servindo para dar corpo às cartas e aos relatos, enquanto Bruno Gagliasso assume uma representação discreta do líder estudantil, sempre subordinada ao material histórico que conduz a narrativa.
Sua presença nunca desloca o foco dos documentos ou das testemunhas, embora a alternância constante entre arquivos e dramatizações nem sempre encontre uma fluidez capaz de aproximar emocionalmente o espectador daquela trajetória interrompida.
Também não existe qualquer tentativa de disfarçar o posicionamento político adotado pelo documentário. Honestino é apresentado como um militante de esquerda profundamente envolvido com o movimento estudantil, com a União Nacional dos Estudantes e com os debates de sua geração, enquanto a repressão da ditadura aparece sob uma perspectiva assumidamente crítica.
Essa escolha torna transparente o ponto de vista da narrativa, mas também faz com que a experiência dependa, em certa medida, da disposição do público em acompanhar essa leitura histórica e política.
As cartas, os poemas e os depoimentos de familiares e antigos companheiros ajudam a retirar Honestino da condição de personagem exclusivamente simbólico, revelando um jovem cuja existência não pode ser resumida ao próprio desaparecimento.
Ainda assim, o filme parece confiar mais na relevância histórica de seu protagonista do que na elaboração cinematográfica capaz de transformar esse material em uma experiência verdadeiramente envolvente.
O resgate dessa memória possui evidente importância política e documental, mas a maneira como ela é organizada nem sempre estabelece uma conexão que vá além do interesse pelo tema em si¨.
Misturando documentário e ficção, HONESTINO reconstitui a trajetória do jovem por meio de cartas, poemas, imagens de arquivo e depoimentos de familiares, amigos, políticos e companheiros de militância, como Almino Afonso, Jorge Bodanzky, Franklin Martins e Betty Almeida, biógrafa do líder estudantil.
A narrativa também ganha uma dimensão contemporânea com a participação de Bruno Gagliasso, que conduz parte da história e aproxima o público de uma figura cuja trajetória permanece atual mais de cinco décadas após seu desaparecimento.
Preso em 1973, Honestino Guimarães nunca mais foi visto. Mesmo após o reconhecimento oficial de sua morte pelo Estado brasileiro, seu corpo jamais foi encontrado. Sua história tornou-se um símbolo da luta pela memória, pela verdade e pela justiça em relação aos crimes cometidos durante a ditadura militar.
O filme revisita documentos históricos e reúne diferentes vozes para revelar não apenas a importância política de Honestino, mas também aspectos de sua personalidade, seus afetos, sonhos e convicções. O resultado é um retrato sensível de um jovem cuja atuação marcou o movimento estudantil brasileiro e continua inspirando novas gerações.
O longa tem sido altamente elogiado pela imprensa especializada. Nas palavras de Eduardo Escorel, crítico da Revista Piauí: "o diretor acertou a mão outra vez. Manteve-se fiel à linguagem híbrida de documentário e ficção que, desde O cineasta da selva (1997), ele vem demonstrando dominar como poucos”.
Já Raphael Camacho, do Cine Pop, destacou a visceralidade do longa “que escancara verdades de quem sempre esteve do lado certo da história”. Enquanto Caio Coletti, do Omelete, pontuou que a obra “é uma articulação poderosa, em termos cinematográficos, que Michiles ainda sustenta com uma costura rítmica habilidosa de depoimentos, imagens de arquivo e encenações. Estas últimas, é claro, servem ao filme como uma ferramenta de pessoalidade, a parte humana do seu manifesto”.
Premiado com o Troféu Redentor de Melhor Montagem no Festival do Rio, HONESTINO também foi selecionado para a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e para o DH Fest – Festival de Cultura em Direitos Humanos. No 20º Fest Aruanda, conquistou os prêmios de Melhor Longa Nacional pelo Júri Popular, Melhor Edição, o Prêmio Abraccine de Melhor Longa-Metragem e o Prêmio Vladimir Carvalho, concedido ao melhor documentário do festival.
Distribuído pela Pandora Filmes, HONESTINO estreia nos cinemas em 13 de agosto.
Sinopse: Fusão de documentário e ficção, o filme conta a história de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração 68, presidente da UNE e aluno da UnB. Preso cinco vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e é um dos centenas de desaparecidos da ditadura militar. Baseado em cartas, poemas e imagens de arquivo, dezenas de depoimentos de familiares, amigos e militantes e cenas interpretadas por Bruno Gagliasso.
Ficha Técnica
HONESTINO - Brasil, 2025
Direção: Aurélio Michiles
Roteiro: Aurélio Michiles e André Finotti
Produtor: Nilson Rodrigues
Produção Executiva: Caetano Curi
Elenco: Bruno Gagliasso
Direção de Fotografia: André Lorenz Michiles, ABC
Direção de Arte: Kita Flórido
Figurino: Isabel Lorenz Michiles
Montagem: André Finotti
Supervisão de Edição de Som: Miriam Biderman, ABC
Desenho de Som e Mixagem: Ricardo Reis, ABC
Trilha Sonora Original: Flavia Tygel
Música Tema (intérprete): Fafá de Belém
Pesquisa de Arquivo: Aurélio Michiles, Mariana Couto, Patricia Freyer, Tereza Eleutério
Produtora: Mercado Filmes
Distribuição: Pandora Filmes










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