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CRÍTICA: NÃO SEI VIVER SEM PALAVRAS

Crítica by Raphael Ritchie¨Passar a vida observando pessoas para transformá las em literatura cria uma situação curiosa quando a câmera decide inverter esse movimento e colocar o próprio observador diante dela.

Ignácio de Loyola Brandão deixa de ser apenas o escritor que registrou inquietações, medos e contradições do Brasil para assumir o centro da narrativa, revisitando lembranças, episódios do jornalismo, o vínculo afetivo com Araraquara e a maneira pela qual as palavras continuam organizando sua relação com o mundo.




Ao acompanhar essa trajetória, Não Sei Viver sem Palavras encontra um personagem naturalmente fascinante, alguém cuja experiência atravessa literatura, cinema e imprensa sem estabelecer fronteiras rígidas entre essas áreas.

O olhar jornalístico ajuda a compreender por que sua ficção sempre dialogou tão intensamente com a realidade brasileira, enquanto a imaginação, o humor e a distopia impedem que seus livros sejam reduzidos a simples reflexos de acontecimentos históricos.

A escrita aparece como um gesto permanente de observação, capaz de transformar acontecimentos cotidianos em reflexão e memória.

Também é inevitável que a conversa alcance temas ligados à censura e à liberdade de expressão, lembrando que, em determinados momentos da história do país, escrever significava enfrentar mecanismos de silenciamento.

Ainda assim, o documentário evita transformar Loyola Brandão em um símbolo abstrato. Seu envelhecimento é apresentado sem a insistência na nostalgia, privilegiando a permanência da curiosidade, da produção intelectual e do desejo de continuar olhando para o presente.




Ao mesmo tempo, a admiração evidente pelo biografado limita parte da complexidade que sua figura comporta. A aproximação íntima promovida pela direção oferece um retrato caloroso e afetuoso, mas nem sempre abre espaço para explorar tensões, contradições ou zonas menos confortáveis de uma personalidade formada ao longo de décadas de intensa atividade cultural.

Em alguns momentos, a narrativa também percorre uma carreira extensa com rapidez, deixando assuntos que despertam interesse antes de aprofundá los.

Ainda assim, acompanhar alguém que insiste em viver cercado pelas palavras mantém o documentário constantemente envolvente, porque essa necessidade de escrever nunca aparece apenas como profissão, mas como uma maneira de preservar experiências e continuar interpretando um país em permanente transformação¨.

Um dos principais nomes da literatura brasileira, Ignácio de Loyola Brandão é desvendado pelas lentes de seu filho, o fotógrafo e cineasta André Brandão, no documentário "Não Sei Viver Sem Palavras".

O filme chega aos cinemas brasileiros no dia 30 de julho de 2026.

O longa-metragem é uma produção da Prosperidade Content e andré+.

A distribuição fica a cargo da Bretz Filmes.




Nascido em Araraquara (SP) em 1936, Ignácio inscreveu seu nome na literatura brasileira com romances, crônicas, livros infanto-juvenis, biografias, relatos de viagens, peças de teatro, entre tantos outros textos.

O documentário resgata de forma bastante pessoal essa trajetória a partir de depoimentos do escritor e um rico material de arquivo.

O longa teve sua première no Festival do Rio e também foi exibido na Mostra de São Paulo.

O filme nasceu na pandemia, quando, vivendo novamente com seu pai, André começou a filmar despretensiosamente o cotidiano deles. Depois, percebeu que desse material poderia surgir um documentário. "O filme é muito caseiro, feito a poucas mãos.

Fizemos oito entrevistas de duas a três horas cada, principalmente na casa dele, mas também no bairro Praça Roosevelt, onde morou por dez anos quando chegou em São Paulo, na biblioteca municipal e na estação de trem de Araraquara - lugares importantes na história dele", resume o diretor.

André, que teve uma longa carreira como fotógrafo, e fez uma transição para o cinema em 2015, conta que muito do material de arquivo do filme veio do próprio Ignácio. O artista mantém bastante organizada uma rica coleção de materiais: “Atrelado ao escritório dele tem um pequeno quartinho, com muitas caixas, e cada uma tem muitos envelopes dentro.

A maioria dos envelopes tem fotos, mas tem também uma boa quantidade com cartões postais, programas de peças, de museus, exposições etc. E cada envelope tem um texto escrito do lado de fora , explicando, em detalhes, o que tem lá dentro".

Além disso, André encontrou nesse arquivo 38 rolos de Super-8, todos filmados pelo escritor durante a década de 1970. Essas imagens acabaram se tornando uma parte importante do filme.

Numa camada mais íntima, são imagens da família, de São Paulo, dele próprio, Araraquara, Berlim, até do nascimento do cineasta.

“Durante o meu nascimento, nos dias em que ele ficou na maternidade acompanhando a minha mãe, ele escreveu um pequeno conto chamado ‘A Montanha Mágica – O Nascimento de André’", conta o diretor.

"Durante a pesquisa para o filme reencontrei esse conto em uma caixa, e encontrei também muitas cartas que ele me escreveu quando eu morei fora do Brasil, entre 1991-1997. Esse material acabou entrando como falas, na minha voz e na voz dele", relembra.

O realizador explica, também, que "Não Sei Viver Sem Palavras" foi uma construção coletiva. Era importante trazer olhares de fora, que não tivessem intimidade com o protagonista e o material filmado, como seu antigo sócio Ricardo Carioba, que é codiretor do filme, Moraga, que montou o filme, e os roteiristas André Collazzo e Vivian Brito.

O diretor confessa que sempre teve uma relação bem próxima com o pai, mas fazer o filme uniu-os ainda mais. "Sinto que esse filme de fato também é um pouco dele. O fato de que ele sempre quis fazer um filme, mas nunca fez, e nesse filme, além de personagem, ele também filmou uma parte importante do material (o Super-8), e o texto é inteiro dele, sejam as entrevistas, sejam os trechos de livros, faz com que esse filme seja também em parte dele", acredita.

"É um pouco uma simbiose, uma passagem de bastão, é o meu primeiro filme, uma releitura da vida e da obra dele partindo de textos e algumas imagens dele, mas com o meu ponto de vista. É algo sutil mas muito forte ao mesmo tempo, difícil explicar", elabora André.

Serviço
Estreia de “Não Sei Viver Sem Palavras”, de André Brandão
Documentário | 2025 | 80 min | 12 anos
Estreia no circuito comercial brasileiro: 30 de julho de 2026
Instagram: @bretzfilmes

Ficha Técnica
Direção: André Brandão
Produtores: Felipe Soutello, Luana Furquim, André Brandão
Produtora Associada: Deborah Osborn
Roteiro: André Brandão, André Meirelles Collazzo, Vivian Brito, Ricardo Carioba
Direção de Fotografia: André Brandão
Montagem: Moraga, edt., Ricardo Carioba
Montagem Adicional: Fernanda Sgroglia
Arte: Leandro N Lima
Edição de Som: Pedro Noizyman, A3pS, Rosana Stefanoni, A3pS
Trilha Sonora: Gabriel Ferreira
Elenco: Ignácio de Loyola Brandão
Empresas Produtoras: Prosperidade Content e andré+
Distribuição: Bretz Filmes

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