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CRÍTICA: PARAÍSO - ENTRE DUAS MARGENS

Crítica by Raphael Ritchie: ¨Dois jovens crescem separados por um oceano e por realidades que parecem impossíveis de aproximar, mas dividem uma mesma ausência que molda a maneira como enxergam a família, o pertencimento e até a própria identidade.




Enquanto Kojo tenta sobreviver ao vazio deixado pelo desaparecimento do pai em Gana, sendo lentamente atraído para um ambiente dominado por violência, manipulação e falsas promessas de proteção, Tony vive em Quebec um conflito mais silencioso ao perceber que um marinheiro ligado à sua mãe talvez seja a peça que falta para compreender a história do pai que nunca conheceu.

A montagem alterna essas trajetórias sem reduzir suas diferenças sociais e culturais a um simples espelhamento. O roteiro entende que cada ausência produz marcas distintas e evita transformar o abandono em apenas um mistério a ser solucionado.

Em Kojo, essa falta se traduz na vulnerabilidade diante de grupos que oferecem pertencimento em troca de violência. Em Tony, ela alimenta uma busca por respostas que ameaça desfazer a imagem construída durante anos sobre sua própria origem.

O oceano atravessa essas histórias ocupando um espaço simbólico importante, sendo ao mesmo tempo lugar de desaparecimento, distância e ligação entre pessoas que jamais imaginaram compartilhar a mesma ferida.

É justamente nessa relação entre destinos aparentemente distantes que Paradise desperta interesse, recusando coincidências fáceis e permitindo que a conexão entre Canadá e Gana exista menos pelo impacto da revelação e mais pelas consequências emocionais que ela provoca. Ainda assim, o equilíbrio entre suspense e intimidade nem sempre se mantém.

Em determinados momentos, a curiosidade sobre os vínculos entre os personagens ganha mais espaço do que o aprofundamento de seus conflitos, fazendo algumas passagens perderem parte da delicadeza que a narrativa demonstra possuir.

O contraste sugerido pelo título também permanece presente durante toda a história. A ideia de paraíso nunca se aproxima dos personagens, cercados por desigualdade, ressentimentos e segredos familiares que atravessam gerações.

O filme encontra sensibilidade ao reconhecer que a ausência de um pai não produz apenas perguntas, mas também escolhas, medos e formas muito diferentes de aprender a existir¨.




(Paradise)
Canadá/França/Gana, 2026, cor, drama/suspense, 1h30min, idiomas: inglês e francês

Direção: Jérémy Comte

Elenco: Daniel Atsu Hukporti, Joey Boivin-Desmeules e Évelyne de la Chenelière

Sinopse: Entre Gana e Québec, dois jovens marcados pela ausência paterna embarcam em jornadas paralelas de autodescoberta, em uma história sobre herança, vínculos familiares e a busca por um lugar no mundo.

Curiosidades: Primeiro longa-metragem de ficção do canadense Jérémy Comte após o sucesso internacional do curta “Fauve”, indicado ao Oscar em 2019.

O projeto levou mais de uma década para ser desenvolvido e foi filmado entre Québec e Gana.

A produção reúne empresas do Canadá, França e África Ocidental, incluindo Entract Studios, EMA Films, ARTE France Cinéma e I60 Productions.

Estreou mundialmente na seção Panorama da Berlinale 2026 e chamou atenção pela ambição de conectar duas histórias em continentes distintos através dos temas da paternidade, das origens e da construção de um futuro.

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