Crítica by Raphael Richie: ¨A rotina de uma professora de piano respeitada no Conservatório de Viena se divide entre a disciplina absoluta das salas de aula e uma vida privada marcada por uma relação sufocante com a mãe, onde afeto, controle e violência deixaram de possuir limites claros.
Aos quarenta anos, Erika Kohut aprendeu a transformar qualquer impulso em contenção, fazendo da precisão exigida pela música clássica uma extensão da própria existência, até que o interesse de um aluno rompe um equilíbrio que já se sustentava de maneira precária.
Michael Haneke acompanha esse processo sem oferecer atalhos emocionais ou justificativas confortáveis. A aproximação entre Erika e Walter jamais se organiza em torno de uma fantasia romântica, mas revela duas pessoas incapazes de compreender aquilo que despertam uma na outra.
Enquanto ele confunde desejo com conquista, ela tenta converter fantasias profundamente particulares em regras rígidas que lhe permitam controlar uma experiência afetiva que também a ameaça. Em A Professora de Piano, intimidade e violência deixam de ocupar campos separados e passam a existir dentro da mesma dinâmica de poder, dependência e ressentimento.
Isabelle Huppert impressiona pela economia de gestos. Pequenas alterações no olhar, na respiração e na postura tornam visível uma personagem que passou a vida escondendo qualquer vulnerabilidade, enquanto Benoît Magimel interpreta Walter com uma mistura convincente de fascínio, arrogância e imaturidade, deixando evidente que seu interesse nunca significou compreensão. Haneke preserva a frieza da encenação, prolonga silêncios e mantém distância suficiente para impedir que o espectador encontre conforto diante das situações de humilhação e agressividade, recusando transformar o choque em espetáculo.
O relançamento em 2026 evidencia o quanto essa adaptação do romance de Elfriede Jelinek continua provocando debates sobre desejo feminino, consentimento, abuso e relações de poder sem oferecer respostas fáceis. Em vez de explicar completamente Erika, o filme observa o resultado de uma vida organizada pela repressão, mostrando que anos de negação podem deformar qualquer possibilidade de intimidade até torná-la inseparável da autodestruição¨.
A Professora de Piano, clássico dirigido por Michael Haneke, retorna aos cinemas a partir de 23 de julho com sessões antecipadas, e estreia oficialmente em 30 de julho no circuito exibidor. Conhecido pela atuação marcante de Isabelle Huppert e premiado no Festival de Cannes, o longa ganhou uma versão restaurada em comemoração aos 25 anos de lançamento. As sessões de pré-estreia acontecem em sete cidades: Belém, Belo Horizonte, Brasília, Londrina, Niterói, Recife e São Paulo.
A trama acompanha Erika Kohut, uma professora de piano no Conservatório de Viena que, prestes a completar 40 anos, ainda vive sob a influência da mãe com quem mora. Sua maneira de escapar dessa realidade é através de desejos profundos, que vêm à tona quando ela desenvolve uma relação com seu novo aluno.
Elogiado por sua abordagem acerca da subjetividade e da sexualidade humana, o longa conquistou em Cannes o Grande Prêmio do Júri, e os prêmios de Melhor Ator e de Melhor Atriz, concedido por unanimidade à Isabelle Huppert. Dirigido por Michael Haneke, grande nome do cinema contemporâneo conhecido por títulos como “A Fita Branca” e “Amor”, o filme é considerado um marco definitivo em sua obra. A Professora de Piano em versão restaurada chega oficialmente aos cinemas em 30 de julho com distribuição da FILMICCA.
SERVIÇO | Pré-estreias de A Professora de Piano
São Paulo
IMS Paulista: 23/07 às 17h30; 24/07 às 21h40; 25/07 às 21h30; 28/07 às 15h30; e 29/07 às 17h30.
CineSesc: 24/07 às 20h e 28/07 às 20h.
Espaço Petrobras de Cinema: 27/07 às 20h.
Cine LT3: 29/07 às 20h.
Brasília
Cine Brasília: 25/07 às 20h e 26/07 às 18h15.
Belém
Cine Líbero Luxardo: 23/07 às 19h20.
Belo Horizonte
Cine Belas Artes: 25/07 às 14h30 e 26/07 às 14h30.
Londrina
Espaço Villa Rica: 26/07 às 18h30.
Niterói
Reserva Cultural Niterói: diariamente às 18h.
Recife
Cinema da Fundação: 23/07 às 19h20.
SINOPSE
Erika Kohut leciona piano no Conservatório de Viena. Prestes a completar 40 anos, ela vive confinada em casa com a mãe — uma influência da qual só consegue escapar durante suas visitas frequentes a cinemas pornô e peepshows. Sua sexualidade é marcada por um voyeurismo mórbido e pela automutilação masoquista. Erika e a vida seguem caminhos distintos. Até que um de seus alunos decide seduzi-la…
O DIRETOR
Michael Haneke é um diretor de cinema e roteirista austríaco. Ele realizou filmes em alemão, mas também em francês e inglês. Sua obra frequentemente aborda a violência na sociedade, questões sociais, o consumismo e indivíduos marginalizados.
Ele conquistou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Cannes por “A Professora de Piano” (2001), bem como a Palma de Ouro em duas ocasiões: por “A Fita Branca” (2009) e “Amor” (2012) — este último recebeu cinco indicações ao Oscar e venceu a estatueta de Melhor Filme Internacional. Também dirigiu “Violência Gratuita” na Áustria, em 1997, e a refilmagem internacional da obra, lançada em 2007 com estreia no Festival de Sundance. Além disso, leciona direção cinematográfica na Academia de Cinema de Viena.
FICHA TÉCNICA
Direção: Michael Haneke
Elenco: Isabelle Huppert, Annie Girardot, Benoît Magimel, Susanne Lothar, Udo Samel e Anna Sigalevitch
2001 | Áustria, França | 131 minutos | 18 anos
Título original: La Pianiste
Gênero: Drama
Idioma: Francês (legendado em português)
Versão Restaurada
Distribuição: FILMICCA



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