Bom Garoto abandona relativamente cedo a expectativa de um suspense concentrado apenas na fuga e passa a observar uma forma muito mais íntima de violência. Chris oferece rotina, recompensa, atenção e pequenas liberdades enquanto mantém controle absoluto sobre outra pessoa.
Tommy pode subir do porão, circular por determinados espaços, participar das refeições, receber algum afeto. A coleira parece aumentar, mas continua sendo uma coleira. Quanto mais a casa se aproxima da imagem de um lar, mais perturbadora se torna a convivência.
Stephen Graham é fundamental para sustentar essa contradição sem transformar Chris numa ameaça óbvia a cada cena. Andrea Riseborough acompanha esse registro de maneira igualmente difícil de decifrar, fazendo com que gestos aparentemente acolhedores convivam com a consciência permanente de que Tommy não escolheu estar ali.
Anson Boon, por sua vez, preserva no personagem traços do jovem agressivo apresentado no início mesmo quando surgem vulnerabilidades, evitando uma redenção fácil e tornando sua adaptação àquela família mais incômoda do que reconfortante.
O humor sombrio nasce dessa normalidade deformada, de pessoas capazes de encaixar punição, afeto e sequestro dentro de uma rotina doméstica quase banal. Essa mistura de tons nem sempre encontra espaço suficiente para desenvolver tudo o que coloca em circulação.
Luto, controle, pertencimento, violência e reeducação aparecem com força, enquanto alguns mistérios permanecem próximos demais da sugestão, numa linha em que a ambiguidade às vezes parece menos provocadora do que simplesmente incompleta.
Ainda assim, a ideia central permanece forte porque não transforma sofrimento em método legítimo de correção. Chris pode acreditar que está ensinando Tommy a viver melhor, mas cada progresso depende de alguém ter retirado primeiro seus direitos mais básicos.
A ironia está justamente nessa família que oferece cuidado enquanto decide quem pode andar, falar, escolher e sair, tentando fabricar um “bom garoto” por meio de uma violência que diz querer eliminar¨.
Nesta quinta-feira (10), o catálogo do Filmelier+ ganha a adição do thriller psicológico “Bom Garoto” (“Heel”).
Com direção do cineasta polonês Jan Komasa, indicado ao Oscar em 2020 por
“Corpus Christi”, a produção conta com um elenco reconhecido, incluindo o
vencedor do Emmy e do Globo de Ouro Stephen Graham (criador e um dos
protagonistas da aclamada série “Adolescência”, da Netflix), e Andrea
Riseborough, indicada ao Oscar pelo longa “To Leslie”.
Na história, Anson Boon interpreta Tommy, um jovem rebelde que acorda preso por uma coleira e mantido em cativeiro no porão de Chris (Graham) e Kathryn (Riseborough).
O casal, aparentemente comum, impõe regras perturbadoras com o objetivo de transformá-lo em um "bom menino". Com uma atmosfera tensa e perturbadora, recorrente em trabalhos dirigidos por Komasa, o filme desafia o espectador ao borrar as linhas entre o bem e o mal, o certo e o errado.
Sinopse:
Tommy, 19 anos, vive entre drogas e violência. Numa noite, é
dopado e acorda preso por uma coleira no porão de Chris e Kathryn — um casal
aparentemente comum decidido a transformá-lo num “bom menino.”
Ficha técnica
Direção: Jan Komasa
Elenco: Stephen Graham, Andrea Riseborough, Anson Boon









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