Entrevistas gravadas em diferentes momentos passam a conversar umas com as outras, criando uma espécie de autobiografia audiovisual em que Marília comenta o trabalho, as relações e sua maneira de enxergar a profissão sem precisar de uma sequência de depoimentos contemporâneos explicando quem ela foi.
A escolha produz proximidade porque ela era uma personagem particularmente interessante de si mesma, inteligente, bem-humorada e franca diante das câmeras, e o material doméstico, inclusive imagens da infância, ajuda a aproximar a figura pública de uma história pessoal formada desde cedo ao redor do palco.
Esse acesso privilegiado ao arquivo também revela o limite da abordagem. Com uma carreira espalhada por tantas áreas, a montagem precisa atravessar rapidamente trabalhos, épocas e transformações, e nem sempre consegue permanecer tempo suficiente para que cada passagem adquira uma dimensão maior do que a de uma lembrança bem organizada.
Mesmo episódios ligados à repressão política, como sua participação em Roda Viva durante a ditadura militar, interessam justamente quando aparecem incorporados à experiência concreta de uma artista vivendo naquele período, e não como simples marcação histórica.
A proximidade dos realizadores com Marília, incluindo a codireção da filha Esperança Motta e o roteiro de Nelson Motta, naturalmente conduz o olhar para um território afetivo.
Isso oferece intimidade e materiais difíceis de alcançar de outra maneira, mas também deixa pouco espaço para perspectivas capazes de tensionar a imagem que Marília construiu de si mesma ao longo dos anos.
O tom de homenagem não seria um problema por si só; a limitação aparece quando a admiração parece encerrar algumas questões antes que elas possam ganhar maior complexidade.
Existe prazer em acompanhar Marília ocupando novamente a tela com uma facilidade impressionante. O documentário preserva essa presença com carinho e competência, embora dependa tantas vezes do fascínio provocado por sua personagem que nem sempre transforma a riqueza do arquivo numa investigação igualmente rica.
É um retrato íntimo e generoso, mais interessado em celebrar do que confrontar, capaz de recordar por que Marília Pêra era tão magnética, mas menos disposto a descobrir quem poderia existir além dessa imagem cuidadosamente preservada¨.
O documentário “Viva Marília” chega aos cinemas no dia 10 de setembro. Com direção de Zelito Viana, codireção de Esperança Motta e roteiro de Nelson Motta, o filme examina o impacto do contexto histórico, político e social do Brasil nos anos 1960, 1970 e 1980, na vida e obra da atriz Marília Pêra. O longa é uma coprodução Globo Filmes, GloboNews e Canal Brasil, com distribuição Mapa Filmes com codistribuição da Bretz Filmes.
Filme de abertura do trigésimo festival É Tudo Verdade,
“Viva Marília” apresenta a atriz, cantora, bailarina e diretora em uma
narrativa conduzida pela própria artista, através de imagens de arquivo,
entrevistas e registros raros, uma viagem por sua vida e sua obra. Do teatro ao
cinema e à televisão, o filme revela a mulher por trás das personagens e o
legado de uma das grandes artistas brasileiras de todos os tempos.
Durante o processo de montagem, foram trabalhadas aproximadamente 80 horas de material audiovisual. Entre as participações especiais em imagens de arquivo estão depoimentos de Sandra Pêra, Nina Morena, Nelson Motta, Esperança Motta, Ricardo Graça Mello, Manuel Pêra, Dinorah Marzullo, Hebe Camargo, Marco Nanini, Héctor Babenco, Jô Soares e Marília Gabriela.
O vasto arquivo da atriz é revisto em uma
narrativa em primeira pessoa. Mais do que um retrato biográfico, o filme é um
encontro com a própria Marília: uma artista que viveu intensamente para a
arte, que transitou com liberdade entre o popular e o sofisticado e que fez de
cada personagem uma nova maneira de estar no mundo.“Viva Marília” é uma
celebração da artista, de seu legado e da memória de um Brasil que ela ajudou a
representar, transformar e interpretar.



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