Post Page Ads

Post Page Top Ads

CRÍTICA: A MORTE NÃO TEM DONO

Crítica by Jhow Foster: ¨Chegando à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo cercado de expectativas — impulsionado pelo nome de Jorge Thielen Armand e pela presença de Asia Argento —, A Morte Não Tem Dono (La Muerte No Tiene Dueño) acaba se consolidando como uma das maiores frustrações do evento. 

O que prometia ser um instigante thriller sobre disputas de terra e decadência colonialista na Venezuela transforma-se rapidamente em um exercício narrativo árido, desconexo e profundamente alienante.




​1. Uma narrativa sem rumo

​O ponto fraco mais evidente do filme é a fragilidade do roteiro. A premissa de Caro (Asia Argento), que retorna ao seu país natal para vender uma antiga fazenda de cacau tomada por ex-funcionários, tinha potencial político e dramático. 

No entanto, a condução da história se perde em sequências totalmente desconexas, nas quais os acontecimentos parecem jogados em tela sem qualquer nexo causal ou estético. O longa se arrasta sem conseguir estabelecer nem a tensão psicológica pretendida nem uma mínima coesão entre os núcleos de personagens.

 ​2. Aspectos técnicos e estéticos decepcionantes

​Em termos visuais, o longa falha em criar atmosfera. A iluminação é desequilibrada, a direção de arte entrega uma ambientação desprovida de textura e a fotografia se revela fria, apática e desinteressante. Em vez de explorar a exuberância e as sombras do cenário tropical para gerar clausura ou suspense, a câmera limita-se a um olhar burocrático que torna a experiência feia e cansativa de se acompanhar.

​3. Atuações e o desfecho desastroso

​As atuações, infelizmente, acompanham o tom do projeto. Nem mesmo a presença de um elenco experiente consegue salvar diálogos mecânicos e atuações apáticas que não transmitem perigo, culpa ou urgência. Para coroar a frustração, o desfecho se apresenta como uma das conclusões mais desconcertantes e insatisfatórias dos últimos anos, recorrendo a uma solução narrativa tão sem sentido que deixa a nítida impressão de que o próprio filme não sabia como terminar.

​Veredito: Uma oportunidade desperdiçada que troca o comentário social e o suspense por uma colagem de cenas sem nexo. Nota: 1/5¨.

Enquanto a Venezuela atravessa uma das maiores crises políticas e econômicas de sua história, o cinema do país resiste. O principal destaque da produção do país neste ano, A MORTE NÃO TEM DONO, que estreou mundialmente na Quinzena de Cineastas, mostra paralela ao Festival de Cannes, chega ao Brasil na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Terceiro longa-metragem de Jorge Thielen Armand, o filme é estrelado por Asia Argento e foi escolhido para representar a Venezuela na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional. O diretor estará em São Paulo para acompanhar as primeiras sessões do filme durante o evento.

Na trama, Argento interpreta Caro, uma mulher que retorna à Venezuela para vender uma propriedade herdada do pai, mas encontra a antiga mansão da família ocupada por ex-funcionários que se recusam a deixá-la. O impasse desencadeia um conflito violento, no qual questões de classe, desigualdade e heranças coloniais se misturam aos códigos do giallo italiano, do slasher e do suspense psicológico. O resultado é, ao mesmo tempo, um thriller de vingança alucinatório e uma reflexão contundente sobre a violência neocolonial, que desafia o espectador ao ancorar a narrativa no olhar do colonizador.

O projeto nasceu da inquietação pessoal de Thielen Armand, que deixou a Venezuela há mais de duas décadas, com a possibilidade de retornar a um país que já não reconhece. “Este é um filme sobre voltar para casa e perceber que você é um estrangeiro em sua própria terra e, portanto, um estrangeiro permanente em qualquer lugar”, afirma o cineasta. O título foi inspirado em um conto de sua avó, Matilde Daviu.

A escolha de Asia Argento também foi pessoal. A atriz aprendeu espanhol para interpretar Caro e passou um mês na Venezuela ensaiando com atores não profissionais nas próprias locações. “Eu sabia que, com toda a dor que ela atravessou, traria à personagem uma vida que não poderia ser escrita”, explica Thielen Armand. Entre os integrantes do elenco estão Dogreika Tovar, descoberta na comunidade costeira de Patanemo, e Jorge Thielen Hedderich, pai do diretor e protagonista de La Fortaleza (2020).

Ambientado em uma mansão do século XIX, encontrada praticamente em ruínas pela equipe, A MORTE NÃO TEM DONO mergulha na atmosfera de pavor constante do gótico tropical e transforma a disputa pela terra em uma reflexão sobre as diferentes concepções de justiça. Depois de Cannes, o longa passou pelos festivais de Locarno (Suíça), onde Asia Argento recebeu o Life Achievement Award pelo conjunto da carreira, Lima (Peru) e Fantastic Fest (Estados Unidos), antes de chegar à Mostra de São Paulo, onde terá quatro exibições.


Postar um comentário

0 Comentários