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CRÍTICA: As Vitrines (49º Mostra Internacional de Cinema de SP)

 


Crítica by Caio Felipe (@Artecinebr)

"As Vitrines", o mais recente trabalho da diretora Flávia Castro, é, à primeira vista, um projeto audacioso e comovente. Ao abordar o delicado e grave tema da ditadura militar no Chile (1973) sob a perspectiva das crianças que se refugiam na Embaixada da Argentina, o filme promete um olhar fresco e necessário sobre um "exílio invisível". No entanto, o que vemos na tela é uma obra de contraste profundo: uma excelência técnica que eleva a experiência, mas que não consegue sustentar o peso de uma narrativa em alguns momentos dispersa.

A genialidade de Flávia Castro reside na capacidade de construir o mundo visual e auditivo de seus jovens personagens, Pedro (12) e Ana (11). O filme é um deleite para os sentidos, com uma Direção de Arte impecável que usa cores quentes e uma cenografia detalhada para humanizar e levar a ludicidade ao ambiente frio do confinamento. Igualmente notável é a sonorização: o design de som é sutil, mas evoca a tensão e o medo do lado de fora, contrastando com os pequenos dramas e as raras liberdades vivenciadas pelas crianças dentro da embaixada.

O grande obstáculo do filme, contudo, reside na execução da sua prometida ousadia: o roteiro e a direção não conseguem convencer plenamente. A sinopse sugere uma jornada de descoberta em meio ao trauma, mas o desenvolvimento é, em diversos momentos, monótono. A busca por criar uma atmosfera de espera e o "parênteses no tempo" do refúgio faz com que o filme chegue a se arrastar. As explicações sobre os acontecimentos externos são esparsas – uma escolha que visa o ponto de vista infantil, mas que, na prática, deixa o público em uma incerteza que cansa. A tensão política, apesar do cenário explosivo, se manifesta como uma grande surpresa vinda do nada, enfraquecendo a imersão.

No elenco, o filme encontra um de seus pontos mais fortes na atuação do experiente Roberto Birindelli. Embora sua presença não seja ativa em todas as cenas – ele vive um dos adultos militantes refugiados –, o ator entrega um personagem que, mesmo com pouco tempo de tela, carrega um peso e seriedade que injetam a urgência e o risco exigidos pela trama. O contraste entre a seriedade dos adultos (personificada por Birindelli) e o olhar lúdico das crianças é o motor dramático do filme, mas é uma faísca que se apaga em longos períodos de inação.

"As Vitrines" é uma obra de extremos: brilha na técnica e na beleza das minúcias infantis, mas deixa a desejar no ritmo e na força dramática de um assunto tão visceral. É um filme de memórias e silêncios, que se perde ao demorar demais no limiar entre a espera e o acontecimento.



Curiosidade da Mostra de SP:

Vale destacar que o veículo Admiradores da 7ª Arte realizou uma entrevista especial na pré-estreia do filme na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com a diretora Flávia Castro e o ator Roberto Birindelli. A conversa promete revelar os bastidores dessa produção desafiadora e o olhar dos realizadores sobre a memória da ditadura e o papel da arte nesse resgate. Fiquem ligados nas redes do Admiradores da 7ª Arte para conferir a íntegra em breve!

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