Post Page Ads

Post Page Top Ads

CRÍTICA: Eu e Meu Avô Nihonjin

 Crítica by Raphael Ritchie: ¨Eu e Meu Avô Nihonjin constrói uma história feita de escutas demoradas. Do tempo que leva até alguém conseguir contar algo difícil. 



E do que se carrega quando esse algo fica guardado por muito tempo. Noboru, com seus dez anos, sente que há lacunas na própria origem. 

Pedaços soltos de uma história familiar que ninguém parece disposto a juntar. E então ele faz o que só as crianças têm coragem de fazer: vai atrás da resposta. Encontra no avô Hideo um silêncio duro, que resiste, mas também guarda muita coisa.

A partir desse encontro entre gerações, o filme encontra sua força emocional. A relação entre os dois se constrói aos poucos, com estranhamento e ternura. Noboru insiste não por teimosia, mas porque intui que há algo importante ali. 




Ele equilibra curiosidade e vulnerabilidade de um jeito raro em personagens infantis. E é nesse movimento delicado que a narrativa cresce, não por grandes reviravoltas, mas por pequenos gestos e silêncios compartilhados.

Enquanto essa busca avança, a herança japonesa e brasileira se entrelaça com naturalidade. A imigração, a guerra e o sentimento de desenraizamento atravessam a história, mas não de forma didática. 

Esses temas estão no jeito de falar, na comida, nas lembranças, nos traumas guardados. O passado não aparece como lição de moral, mas como parte viva daquilo que ainda dói e molda os afetos de hoje.

Esse cuidado com a memória também se reflete na direção de arte. Inspirada nas obras de Oscar Oiwa, a estética do filme dá vida a paisagens emocionais. Os cenários parecem respirar junto com os personagens, as cores são carregadas de significado e ajudam a construir esse lugar entre o real e a lembrança. Tudo contribui para uma atmosfera sensível, que não subestima nem a dor nem a beleza de se lembrar.



Hideo, o avô, vai se revelando aos poucos. É um personagem construído com contenção e profundidade. Sua resistência em falar diz muito sobre o que o silêncio pode significar quando atravessa gerações. E quando se vê diante de um neto disposto a ouvir, começa a se transformar também, ainda que de forma sutil. O que ele não consegue dizer em palavras, talvez consiga em presença.

Eu e Meu Avô Nihonjin não se apoia apenas na nostalgia. Ele convida a pensar sobre pertencimento, sobre o que herdamos e o que escolhemos deixar para trás. É um filme que respeita o tempo de quem precisa lembrar e o afeto de quem está disposto a escutar¨.

Celebrando a diversidade e o legado da imigração japonesa no Brasil, a animação estreia em um momento simbólico: 2025 marca os 130 anos do Tratado de Amizade entre Brasil e Japão.
Direção: Célia Catunda
Distribuição: H2O Films




Postar um comentário

0 Comentários