Crítica by Caio Felipe (@artecinebr)
"Made In EU", o potente drama búlgaro de Stephan Komandarev exibido na mostra competitiva do Festival do Rio, é um filme que nos obriga a encarar de frente uma realidade dura e contemporânea: a da exploração industrial disfarçada de progresso europeu. O longa, que acompanha Iva, uma operária em uma fábrica de roupas na Bulgária, que se torna bode expiatório da primeira onda da COVID-19 em sua pequena cidade, demonstra uma originalidade de roteiro ao enraizar o trauma da pandemia nas rachaduras do capitalismo agressivo e dos preconceitos enraizados.
O filme acerta em cheio ao dar voz a uma história necessária, que muitas vezes preferimos não pensar. A complexidade do trabalho industrial desvalorizado, explorado e repleto de preconceitos, especialmente nas franjas da União Europeia, é tratada com uma tensão dramática constante.
Visualmente, Komandarev prova ter uma direção precisa, apoiada por uma fotografia que é quase um personagem por si só. A luz, frequentemente fria e o ar dramático do local de trabalho e da zona rural búlgara, compõem um cenário que reflete o isolamento e o desespero. Essa paleta gélida e o ambiente opressor se encaixam perfeitamente com o roteiro tenso e dramático, criando um contraste impactante com os momentos mais vulneráveis dos personagens.
(imagens de divulgação)
É no campo das emoções que o filme se destaca. "Made In EU" atinge atos bem sensíveis que conseguem transmitir muita emoção e sensibilidade sem cair no melodrama. A demonização pública de Iva — que se torna pária social sob acusações infundadas de ter trazido o vírus, expondo o preconceito e o medo da comunidade e dos colegas de trabalho — é tratada com uma crueza digna.
A espinha dorsal que sustenta essa narrativa tensa são as brilhantes atuações do elenco, com destaque para a protagonista, que personifica a resistência e o sofrimento da classe trabalhadora explorada. A dor da exploração e a fúria da injustiça são transmitidas com uma verdade que nos move e perturba.
"Made In EU" é um filme que usa o drama de uma crise sanitária global para desenterrar feridas sociais mais profundas. É uma obra que não apenas retrata a exploração, mas que ressoa como um grito urgente contra a injustiça e a descartabilidade da vida humana em um sistema onde o lucro fala mais alto que a saúde e a dignidade. Um retrato feroz, oportuno e instigante.
Ficha:
Indicações: Armani Beauty Audience Award
Gênero: Drama
Produção: Stephan Komandarev, Christoph Kukula, Eike Goreczka, Katya Trichkova, Anna Maria Aslanoğlu, Pavel Strnad, Bekir Yusuf Açıksöz, Önder Furkan Besli, Zeynep Ekmekçi
Duração: 1h 42m
Trailer:
https://www.youtube.com/watch?v=zZUe15nX2kY





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