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Crítica: SIRÂT (49º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)


Crítica by Caio Felipe (@artecinebr)

Com o pulso acelerado de uma rave no deserto e a poeira de uma busca desesperada, "Sirât", do diretor Oliver Laxe, se apresenta como uma experiência cinematográfica que nos agarra pela alma, mas que exige um fôlego considerável do espectador. Chegando à
49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo como filme de abertura, e contando com a presença de atrizes como Stefania Gadda e Jade Oukid, a obra já carrega o peso e o brilho de ter sido agraciada com o Prêmio Especial do Júri no prestigiado Festival de Cannes.

"Sirât" é um road movie que transcende a mera jornada física. A história de Luis (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez) em busca da filha e irmã desaparecida, Mar, em meio às festas eletrônicas e paisagens áridas do deserto do Marrocos, ecoa a essência de filmes do gênero, como a angústia familiar em "O Que Arde" (também de Laxe) ou a atmosfera sufocante de tragédias em estrada, lembrando até a tensão visceral de clássicos como "O Salário do Medo". Contudo, Laxe injeta uma dose de espiritualidade visual e um impacto sensorial que o torna singular.



O filme se inicia com uma imersão quase tática na cena rave: minutos de som eletrônico pulsante, corpos em transe e um trabalho de som premiado em Cannes (para Kangding Ray) que é impressionante. Essa potência sonora e visual é uma das grandes qualidades, mas também o pivô de sua dualidade. É inegável que, em diversos momentos, a intensidade da busca, a incerteza do caminho e o encontro com figuras misteriosas e ravers no deserto prendem o espectador em um misto de suspense e curiosidade.

No entanto, essa mesma busca incessante, filmada em longas passagens pelo deserto – um não-lugar árido e implacável – leva a obra a momentos em que ela se torna cansativa e parada. O ritmo propositalmente arrastado do deserto, a alternância entre o caos sonoro e o silêncio imponente, testa a paciência, mas de forma calculada. Laxe parece exigir uma penitência de quem assiste, fazendo com que o espectador sinta o peso daquela travessia.

A curiosidade de que o filme dividiu opiniões desde sua passagem por Cannes é, talvez, o seu maior mérito: não deixa ninguém indiferente. No final, no entanto, "Sirât" recupera o fôlego e, para muitos, entrega uma conclusão que, embora ambígua, se mostra catártica e profundamente humana. É um cinema de risco, que ousa mesclar a tragédia familiar com o êxtase místico, e que nos lembra que a jornada mais perigosa é, muitas vezes, aquela que fazemos para dentro de nós mesmos, no deserto da alma. Um filme-abismo que vale a travessia, mesmo que seja preciso suar.

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