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CRÍTICA: BLUE MOON

Crítica by Raphael Ritchie: ¨Blue Moon se passa ao longo de uma única noite, mas carrega décadas de frustração, talento desperdiçado e memórias que parecem pesar mais do que a própria trajetória. 



Lorenz Hart, letrista brilhante e agora esquecido, passa as horas no bar enquanto o mundo lá fora celebra o sucesso de Oklahoma, o novo musical de seu ex-parceiro Richard Rodgers com Oscar Hammerstein. É nesse contraste que o filme se ancora: enquanto um renasce, o outro afunda.

A escolha de limitar o tempo da narrativa a essa noite específica, 31 de março de 1943, não serve apenas como recurso dramático. Ela traduz com precisão aquele tipo de sensação que às vezes toma a gente quando tudo ao redor parece seguir em frente, menos a gente. Hart está ali, entre drinques, memórias, ressentimentos e uma espécie de vazio que não se disfarça mais. 

Ethan Hawke entrega essa espiral com um domínio maduro, incorporando um artista à beira da exaustão que tenta manter alguma dignidade mesmo quando o corpo e a cabeça já não respondem com clareza. É interessante ver Hawke, um ator que há anos colabora com Linklater em histórias de passagem do tempo, mergulhar agora numa história sobre aquilo que o tempo cobra de quem não se encaixa nas celebrações.

A atmosfera do filme pulsa com Broadway, mas não aquela idealizada, iluminada por holofotes e aplausos, e sim a dos bastidores frios, das salas de ensaio, dos bares meio vazios onde se lamenta o que poderia ter sido. 

A música está presente como presença fantasma. A gente não escuta as canções como espetáculo, mas como lembrança. Elas existem nas conversas, nos acordes soltos, no que não foi cantado. O cenário, a iluminação abafada, os figurinos discretos, tudo reforça esse sentimento de alguém que viveu grande parte da vida dentro da arte, mas agora só consegue assistir à festa do lado de fora.

O tema da irrelevância aparece de forma especialmente cruel. Hart é alguém que já esteve no centro e agora assiste ao centro se mover sem ele. E o filme se dedica a acompanhar essa transição de forma íntima, sem precisar justificar o que levou à queda. A dor está na comparação inevitável, nos elogios que vão para outros nomes, nas escolhas criativas que agora pertencem a outra parceria. Rodgers é sucesso, Hart é sombra. E isso basta para fazer a noite parecer ainda mais longa.

Talvez por isso Blue Moon não funcione para todos. Ele exige paciência, pede uma escuta atenta, uma disposição para observar um personagem em queda livre sem grandes reviravoltas ou revelações. É um filme sobre estar fora do palco. Sobre ficar na mesa do bar enquanto a plateia ovaciona outro nome. E isso pode parecer pouco para quem espera enredo, mas diz muito sobre o que acontece quando o tempo passa e o mundo já não olha mais para você da mesma forma.

A ambientação fiel à Nova York de 1943 e o vínculo com a cultura musical estadunidense ajudam a criar um retrato específico e elegante, mas também podem distanciar quem não tem intimidade com esse universo. Ainda assim, o que está em jogo ali é algo mais universal: a sensação de ser deixado para trás. E mesmo que o filme nunca precise sublinhar isso, a dor que transborda nos olhos de Hart é suficiente para fazer a gente entender¨.

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