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CRÍTICA: FOI APENAS UM ACIDENTE

 Crítica by Raphael Ritchie: ¨Em Foi Apenas um Acidente, tudo começa com um cachorro atropelado no meio da noite. Um ruído breve, quase banal, como tantos outros que atravessam a vida cotidiana sem grandes consequências. 



Mas dessa vez, não é só um latido engasgado nem o som de freios cortando o silêncio. É também o som metálico de uma perna mecânica. Um detalhe mínimo, mas que ativa algo irreversível.

Vanid, o mecânico que atende o carro envolvido no acidente, reconhece esse som. Não é só uma prótese qualquer. É o ruído exato que ele escutou no passado, em circunstâncias que o corpo nunca esqueceu. A partir dali, o filme não trata mais de um acidente, trata de um trauma que se move. Do passado que insiste em voltar pela fresta mais improvável.

Com essa premissa quase simbólica, o longa costura o retorno de Jafar Panahi à cena cinematográfica com uma narrativa que parece simples, mas que desdobra lentamente camadas de culpa, vingança, identidade e desgaste. Depois de quase duas décadas proibido de filmar ou deixar o Irã, Panahi volta com uma história onde cada gesto carrega algo não resolvido. E faz isso sem necessidade de se posicionar diretamente, sem bandeiras, mas com uma consciência política entranhada nos detalhes mais corriqueiros.

Vanid não é um herói clássico nem um justiceiro funcional. Ele é um homem que ouviu um som e, a partir dele, teve que encarar tudo o que estava mal costurado dentro dele. A violência que sofreu, os companheiros que perdeu, o silêncio que seguiu. Quando ele junta outros ex-presos e tenta investigar o possível algoz, o que se desenha não é exatamente um plano, mas uma tentativa confusa de dar nome ao que ficou pendurado no corpo. O filme transforma o som da prótese em um sinal de que o passado não passou, e que justiça e vingança raramente caminham em linha reta.

Há um esforço constante do roteiro em deixar a dúvida pairando. O homem é mesmo o torturador? A memória pode ser enganosa? O corpo mente? Ou lembra mais do que deveria? E com isso, o filme mergulha em um labirinto ético que não tem saídas limpas. O espectador é colocado no mesmo lugar de Vanid, entre a certeza física do que se sente e a instabilidade moral do que se pode fazer com isso.

Visualmente, o filme trabalha com contenção. São ruas vazias, oficinas silenciosas, apartamentos apertados onde a tensão escorre devagar. A escolha de uma paleta fria, os diálogos quase sempre curtos e as ausências visíveis criam uma atmosfera em que esses personagens apenas sobrevivem. Um país onde o trauma coletivo convive com a necessidade de seguir funcionando, como se nada tivesse acontecido.

Mas apesar de toda a força simbólica e política, Foi Apenas um Acidente pode não atingir de imediato quem não está familiarizado com o cinema iraniano ou com as articulações mais sutis de um discurso político visual. É um filme de camadas, que exige atenção aos detalhes e à densidade daquilo que não se diz com todas as letras. O risco é que sua potência passe despercebida se o espectador estiver esperando confrontos diretos, reviravoltas ou qualquer ideia de clímax.

Ainda assim, há algo de poderoso no modo como o filme constrói o corpo como espaço de memória e de justiça. Não pelo que ele faz, mas pelo que ele carrega. E é justamente nessa lentidão, nessa ambiguidade, que o filme se estabelece como uma obra madura, cheia de inquietações que não buscam solução, mas reconhecimento¨.


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