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CRÍTICA: SORRY BABY

 Crítica by Rapahel Ritchie: ¨Agnes está tentando voltar ao mundo, mas nada nela parece acompanhar esse retorno. 



O corpo reage com lentidão, o olhar escapa pelas frestas, as palavras tropeçam entre o silêncio e o constrangimento. Algo grave aconteceu e isso é claro desde o início, mas o filme recusa qualquer explicação direta. 

Não há flashbacks, não há reconstrução do trauma. O que vemos é o depois. E o depois é feito de ruídos, de ausências, de uma estranheza que contamina até o cotidiano mais simples.

A diretora Eva Victor, que também interpreta a protagonista, acerta em cheio no tom. Sua atuação é contida, cheia de pausas, hesitações, silêncios que pesam mais do que qualquer fala. 

Agnes não é símbolo de nada, nem veículo para tese alguma. É só uma mulher tentando existir enquanto tudo ainda parece frágil demais. E talvez por isso ela soe tão real.

O ambiente universitário onde a maior parte da trama se passa também contribui para esse estado de suspensão. Os seminários, os almoços entre colegas, os diálogos excessivamente racionais criam uma barreira entre Agnes e o mundo, como se até a linguagem tivesse desaprendido a tocar. 

A estrutura fragmentada, com cortes secos e uma linha temporal que evita linearidade, reforça essa sensação de deslocamento.

Apesar de tudo isso, Sorry, Baby não se rende ao peso. Há um tipo de humor estranho que atravessa a história. Um riso que nasce do constrangimento, da inadequação, de momentos tão absurdamente desconfortáveis que só poderiam ser engraçados. 

E isso pode causar reações diferentes. Alguns vão se identificar com esse tom agridoce, esse jeito de rir para não despencar. Outros podem achar que a ironia esvazia o tema, que o filme evita mergulhar onde dói mais.

O mesmo vale para os diálogos, às vezes brilhantes, às vezes um pouco escritos demais, como se a autoconsciência da linguagem impedisse que os personagens simplesmente vivessem. E para a ausência de uma catarse, que pode frustrar quem espera um arco clássico de superação.

Mas talvez o que torna o filme tão honesto seja justamente isso. A recusa de oferecer alívio, explicação ou redenção. A ideia de que nem sempre existe um momento em que tudo melhora. Que às vezes viver com a dor é tudo o que dá pra fazer¨.

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