Crítica by Raphael Ritchie: ¨Elisa vive com a mãe num conjunto habitacional onde a rotina perdeu o brilho e tudo parece funcionar no piloto automático.
Fumigações diárias tomam conta do ar, os vizinhos envelhecem em silêncio, os bichos desapareceram e os poucos jovens que restam sonham em ser selecionados para o Norte, um lugar idealizado, promissor, onde apenas os escolhidos, os mais talentosos e produtivos, têm direito de entrar. É o futuro como prêmio. E agora, Elisa é uma das candidatas.
A mãe, entusiasta desse projeto, trabalha em dois turnos para garantir a vaga da filha no leilão de viagens. A irmã mais velha já foi, e as mensagens que ela manda de lá, frias e impessoais, sugerem que alguma coisa se perdeu nesse trajeto.
Elisa ainda está ali, cercada pela expectativa de todos, tratada como um ativo raro, uma juventude valiosa num mundo onde isso virou moeda. Mas ao invés de se empolgar com a possibilidade de partir, ela começa a resistir.
A chegada de Leonor, uma enfermeira com uma prótese na perna e um olhar estranho para aquele mundo tão limpo, tão controlado, funciona como um ponto de ruptura. A conexão entre as duas é feita de silêncios, de gestos pequenos, mas o suficiente para abalar a lógica em que tudo é calculado. Num lugar onde afeto não é eficiente, qualquer vínculo que escape da produtividade parece perigoso.
O filme constrói sua distopia sem pressa, apostando em imagens repetidas e sons que incomodam. Tudo ali funciona com uma precisão mecânica, os alertas, os cronogramas, os corredores limpos demais. E é nesse cenário gelado que Elisa toma sua decisão mais importante, não ser mais uma peça. Ela não grita, não confronta, não precisa de palavras de efeito. A recusa está no corpo, no olhar, na recusa em se mover como esperam que ela se mova.
É uma ficção científica que encosta devagar e fala muito mais sobre o agora do que sobre o futuro. Sobre como se exige dos jovens desempenho, excelência, sacrifício, como se existir com leveza fosse perda de tempo. O Norte, nesse contexto, é a promessa que hipnotiza, mas também a estrutura que exclui, padroniza, silencia.
Talvez o ritmo lento e o tom seco afastem parte do público. Mas pra quem embarcar, a recompensa é uma crítica social dura e silenciosa, embalada por uma estética limpa que diz tudo sem levantar a voz. Elisa é só uma garota comum. Mas justamente por isso, sua recusa ecoa com força¨ .




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