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CRÍTICA: A USEFUL GHOST

Crítica by Raphael Ritchie: ¨A Useful Ghost parte de uma ideia que parece piada, um espírito que volta ocupando um aspirador de pó, mas logo revela que o riso aqui é só a porta de entrada para algo bem mais melancólico. 

A morte de Nat não é apenas um evento absurdo causado pela poluição. 

Ela vira um sintoma. Um corpo que some, mas cuja ausência continua sendo usada, manipulada, reciclada.



O filme mistura surrealismo e política com uma naturalidade estranha, quase desconfortável. A direção aposta num humor seco, às vezes quase sem reação, enquanto constrói um retrato triste da memória coletiva, como se cada fantasma que surge fosse menos uma assombração e mais um arquivo mal resolvido. Não se trata apenas de amar alguém depois da morte, mas de como os vivos transformam os mortos em discurso, em escudo moral, em repetição infinita de um trauma que nunca chega a cicatrizar.

Mesmo nos momentos engraçados, há sempre uma tristeza baixa, constante, como um ruído de fundo que não desaparece. O filme parece consciente do próprio ridículo e decide abraçá lo. Porque é justamente nessa estranheza que ele encontra sua linguagem. Objetos possuídos, afetos deslocados, relações que funcionam mais como metáfora do que como drama tradicional.




Há ecos de um cinema que mistura o espiritual ao político, o cotidiano ao fantástico, lembrando certos autores asiáticos que flertam com o invisível sem explicá lo demais. Mas A Useful Ghost não se perde na referência. Ele segue um caminho próprio, ainda que irregular. Para alguns, essa mistura de gêneros vai parecer solta, quase desconexa. Para outros, é exatamente aí que mora sua força, na recusa em escolher um tom único, assim como o luto nunca escolhe uma forma só de existir.

No fim, fica a sensação de um filme que observa mais do que resolve. Um filme que pergunta, com ironia e pesar, o quanto precisamos dos mortos para justificar o que fazemos em vida¨.




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