CRÍTICA BY RAPHAEL RITCHIE: ¨¨Becket Redfellow decide transformar ressentimento em plano de negócios e vingança em estratégia patrimonial.
Deserdado ao nascer por sua família obscenamente rica, ele cresce longe dos privilégios que considera seus por direito e, já adulto, passa a eliminar metodicamente cada parente que o separa da fortuna bilionária.
Em Manual Prático da Vingança Lucrativa, herança vira meta, e assassinato, ferramenta.
O filme assume desde cedo o flerte com o humor negro, encenando crimes como etapas de um projeto corporativo. A comparação inevitável com Kind Hearts and Coronets surge não apenas pela estrutura, mas pela ironia aristocrática reciclada em cenário urbano e contemporâneo.
Aqui, no entanto, a sátira social tenta dialogar com debates atuais sobre privilégio e desigualdade, e nem sempre encontra a lâmina mais afiada.
Glen Powell sustenta boa parte do interesse dramático. Seu Becket é carismático o suficiente para provocar cumplicidade, mas frio o bastante para lembrar que estamos diante de alguém que racionaliza cada disparo como ajuste contábil.
O espectador oscila entre rir da audácia e se incomodar com a naturalidade da violência. Essa ambiguidade é o motor do filme, e também seu risco.
A direção demonstra ambição ao tratar o ressentimento como sintoma de uma estrutura de classe doentia. Em alguns momentos, a mise en scène acerta ao enquadrar mansões e salas envidraçadas como vitrines de um privilégio quase obsceno.
Em outros, a alternância entre humor ácido e tensão criminal produz uma irregularidade tonal que dilui o impacto. Falta, por vezes, a coragem de levar a sátira até o limite ou de mergulhar de vez no thriller.
Os personagens secundários, incluindo a figura vivida por Margaret Qualley, funcionam mais como peças estratégicas no tabuleiro de Becket do que como presenças plenamente desenvolvidas. Contribuem para o avanço da trama, mas raramente desafiam o protagonista com a densidade que a proposta permitiria.
Ainda assim, há prazer na provocação. Manual Prático da Vingança Lucrativa oferece uma comédia criminosa que questiona a moralidade do mérito e a fantasia da justiça individual, mesmo sem alcançar a mordacidade máxima de sua própria ideia. Diverte, instiga e incomoda em doses desiguais¨.
Margaret Qualley é um dos principais nomes da obra e interpreta Julia, a paixão de infância de Becket. Segundo Powell, a produção precisava de alguém capaz de interpretar uma personagem “cuja beleza esconde sua astúcia” e encontraram a atriz ideal em Qualley.
Além disso, Ford compara a personagem a uma femme fatale ao afirmar que “a personagem vem de uma grande tradição do cinema, o tipo de femme fatale que se via nos anos 1930 e 1940, mas atualizada para os dias de hoje. Como essa pessoa seria agora? Qual seria o seu sistema de valores hoje?”
Além de Julia, outro personagem importante na vida de Becket é Ruth, interpretada por Jessica Henwick, uma mulher que trabalha com moda, mas está cansada da superficialidade da indústria e estuda para se tornar professora.
Becket e Ruth têm uma conexão imediata e o protagonista a conhece quando está se aproximando de seu primo Noah, vivido por Zach Woods, com quem Ruth tem uma relação.
Além de Noah, outro primo de destaque de Becket é Steven Redfellow, pastor interpretado por Topher Grace. Ele é um líder religioso extravagante, que alcança notoriedade com performances de música gospel.
Representando a geração mais velha da família Redfellow estão Warren, vivido por Bill Camp, um tio com quem Becket desenvolve uma relação afetuosa, e Whitelaw, interpretado pelo lendário Ed Harris, o avô do protagonista, conhecido por ter deserdado a própria filha da árvore genealógica e impedido Becket de levar uma vida cercada de privilégios.
Powell não esconde a felicidade em trabalhar com Harris, resumindo a oportunidade como “incrível, tanto para o filme quanto pessoalmente. Eu tive a oportunidade de trabalhar com ele em Top Gun: Maverick, tecnicamente, mas não contracenei com ele.”
Além de roteiro e direção de John Patton Ford, a obra conta com produção da A24 e sua distribuição em território brasileiro é garantido pela Diamond Films, a maior distribuidora independente da América Latina.
MANUAL PRÁTICO DA VINGANÇA LUCRATIVA estreia nacionalmente em 26 de fevereiro.








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