Vencedor do Urso de Prata – Prêmio do Júri no Festival Internacional de Cinema de Berlim 2025, A Mensageira (El mensaje), de Iván Fund, estreia nos cinemas brasileiros em 19 de março de 2026, com distribuição da Filmes do Estação.
Filmado em preto-e-branco e conduzido como um road movie centrado nos personagens, o longa acompanha Anika (Anika Bootz), uma pré-adolescente com o “dom” de se comunicar com animais, vivos e mortos.
¨No interior da Argentina, uma menina passa a ser levada pelos próprios responsáveis para realizar atendimentos em que, supostamente, se comunica com animais, transformando esse dom ambíguo em fonte de renda para uma família atravessada pela precariedade. É a partir dessa dinâmica que o filme se organiza, acompanhando de perto essa rotina e a relação silenciosa que se estabelece entre cuidado, necessidade e exploração.
“A Mensageira” aposta em uma encenação que se ancora quase exclusivamente na observação, como se a câmera se recusasse a intervir ou a conduzir qualquer tipo de progressão mais evidente, preferindo permanecer nesse espaço de registro contínuo do cotidiano. Os atendimentos se repetem, os gestos retornam, e o tempo parece sempre um pouco mais alongado do que o necessário, criando uma experiência que insiste na contemplação como princípio.
Nesse processo, a ambiguidade em torno do dom da menina se mantém constante, mas raramente se transforma em tensão dramática. A dúvida existe, atravessa as cenas, mas não ganha densidade, porque o filme opta por um mesmo tom, uma mesma distância, como se qualquer possibilidade de aprofundamento fosse deliberadamente suspensa em favor desse olhar mais neutro.
A relação entre a criança e os adultos carrega um desconforto que poderia ser o motor do filme, sugerindo uma fronteira frágil entre afeto e exploração, mas essa fricção permanece sempre insinuada, nunca desenvolvida o suficiente para provocar deslocamento ou conflito. Tudo parece contido, quase imobilizado.
A ambientação reforça esse estado, com o isolamento e a precariedade funcionando como pano de fundo constante, explicando as escolhas sem necessariamente tensioná las.
E, ao se estruturar muito mais como um acompanhamento de rotina do que como uma narrativa com direção clara, o filme acaba produzindo uma sensação de repetição que, em vez de aprofundar, esvazia, fazendo com que a proposta contemplativa perca força à medida que o filme avança e transforme sua própria ambiguidade em algo próximo da indiferença¨.
Em plena crise econômica, seus tutores, Myriam (Mara Bestelli) e Roger (Marcelo Subiotto), transformam esse dom em sustento e organizam consultas mediúnicas para tutores de pets enquanto cruzam o interior argentino em uma pequena van numa fronteira delicada entre fé, afeto e oportunismo.
O filme se debruça justamente sobre a carência e a necessidade de consolo de pessoas dispostas a pagar por uma última “mensagem”, um sinal, uma explicação para a perda ou para o medo iminente da despedida.
É nessa brecha emocional que o oportunismo se instala não como vilania explícita, mas como sobrevivência, ambiguidade e negociação constante entre o que é genuíno, o que é performance e o que é necessidade.
O trio central sustenta o filme com precisão e Anika Bootz conduz a trama com presença magnética, oscilando entre a brincadeira juvenil e a melancolia, enquanto Mara Bestelli e Marcelo Subiotto dão densidade às ambiguidades desse “núcleo familiar” improvisado.
Prêmios e festivais
Além do Urso de Prata em Berlim, o filme acumulou reconhecimento no circuito internacional:
Berlinale 2025 (Festival Internacional de Cinema de Berlim) | Urso de Prata – Prêmio do Júri
Festival Internacional de Cinema de Pequim 2025 (Prêmios Tiantan) | Melhor Atriz Coadjuvante (Mara Bestelli), Melhor Fotografia (Gustavo Schiaffino) e Melhor Contribuição Artística
Festival Internacional de Cinema de San Sebastián 2025 | Seleção: Horizontes Latinos
Festival Internacional de Cinema de Viña del Mar 2025 | Melhor Filme (Competição Ibero-americana de Ficção)
Festival dos 3 Continentes 2025 | Menção Especial do Júri (interpretação) para Anika Bootz
Sobre o diretor
Iván Fund (San Cristóbal, Argentina, 1984) é um cineasta argentino que atua em múltiplas funções em seus projetos (roteiro, produção, fotografia e montagem). Seu longa Los labios (The Lips) foi selecionado para a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes e venceu o Prêmio de Interpretação Feminina em 23 de maio de 2010. Em 2021, Fund teve a estreia mundial de Piedra noche (Dusk Stone) na mostra Giornate degli Autori do Festival de Veneza.
Seu trabalho mais recente, The Message (El mensaje), passou pelo WIP Latam do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián em agosto de 2024, estreou na Competição Oficial da Berlinale em 18 de fevereiro de 2025 e conquistou o Urso de Prata – Prêmio do Júri em 22 de fevereiro de 2025.
Sinopse
Nas estradas empoeiradas do interior da Argentina, uma menina e seus avós atravessam pequenas cidades oferecendo sessões nas quais ela “escuta” e “traduz” mensagens dos animais. Mágica ou fraude, uma coisa é certa: o serviço é real e a inocência, um tesouro.
Gênero: Drama
Países: Argentina / Espanha / Uruguai
Ano: 2025
Duração: 91 min
Idioma: espanhol
Som: 5.1
Formato: 1.85 | P&B
Ficha técnica
Direção e roteiro: Iván Fund
Roteiro: Iván Fund, Martín Felipe Castagnet
Produção: Rita Cine, Insomnia Films
Coprodução: Animista Cine, Panes 360 Contenidos, Blurr Stories, Amore Cine
Fotografia: Gustavo Schiaffino
Montagem: Iván Fund
Direção de som: Leandro de Loredo, Omar Mustafá
Música: Mauro Mourelos
Elenco: Anika Bootz, Mara Bestelli, Marcelo Subiotto, Betania Cappato
Distribuição: Filmes do Estação
Serviço
Estreia no Brasil: 19 de março de 2026
Distribuição: Filmes do Estação









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