Crítica by Raphael Ritchie: ¨Dentro da garagem do avô, coberto por poeira e silêncio, existe um Fusca que parece ter sido esquecido pelo tempo.
É a partir desse encontro aparentemente banal que O Velho Fusca encontra sua ideia central, transformando o carro abandonado no ponto de partida para uma história que tenta atravessar lembranças, ressentimentos familiares e a difícil tarefa de reconstruir pontes entre gerações.
Quando Junior decide que quer ficar com o carro, o gesto vai além de uma simples vontade juvenil. O Fusca passa a funcionar quase como um personagem dentro da narrativa, um objeto que conecta passado e presente enquanto reabre feridas que estavam guardadas há anos.
Cada tentativa de colocar o carro de volta na estrada acaba também mexendo em memórias que a família preferiu deixar estacionadas.
No centro desse movimento está a relação entre Junior e o avô vivido por Tonico Pereira. O ator constrói um personagem marcado por uma mistura de teimosia, amargura e fragilidade, alguém que parece carregar o peso de uma geração acostumada a engolir frustrações em vez de confrontá las.
Enquanto isso, Junior se move com a energia de quem ainda acredita que certas distâncias podem ser encurtadas com insistência, afeto e um pouco de ingenuidade.
Ao redor desse eixo emocional, o filme inclui o romance juvenil entre Junior e Laila e pequenas situações de humor cotidiano que ajudam a manter o tom leve da narrativa.
A atmosfera aposta claramente em uma sensação de nostalgia, usando o Fusca e a ambientação urbana como gatilhos de memória e pertencimento, tentando construir um espaço acolhedor para um público familiar.
O problema aparece quando o roteiro decide suavizar certos conflitos que ele próprio apresenta. O avô demonstra atitudes racistas e homofóbicas em diferentes momentos da história, mas o filme parece mais interessado em preservar a imagem afetuosa do personagem do que em confrontar essas falas.
Não existe um processo real de transformação ou arrependimento, apenas a tentativa de enquadrar esse comportamento dentro de uma lógica de tolerância familiar que tudo absorve.
Esse caminho revela uma fragilidade recorrente em histórias que buscam a reconciliação como destino inevitável. Na tentativa de restaurar laços entre gerações, conflitos morais mais complexos acabam sendo diluídos em soluções sentimentais que preferem o conforto emocional ao enfrentamento verdadeiro.
Mesmo assim, O Velho Fusca encontra algum charme na delicadeza com que observa a relação entre avô e neto e na ideia de que certos objetos guardam histórias que as pessoas nunca conseguiram terminar de contar. Falta ao filme, porém, a disposição de encarar as fissuras que surgem quando essas histórias finalmente voltam à superfície¨.
O espírito carioca transborda em cada frame de “O Velho Fusca”, transformando o Rio de Janeiro em um personagem central da narrativa. Com locações charmosas como o bairro da Urca, a produção captura a luz e a atmosfera solar da cidade.
Essa identidade é reforçada por um elenco que é a cara da cidade, assim como pela trilha sonora, trazendo hinos interpretados por lendas do samba e da MPB como Jorge Aragão, Teresa Cristina, Diogo Nogueira, Xande de Pilares e Péricles. Há também músicas de Jorge Vercillo e do rapper PK, efetivando o equilíbrio entre o clássico e o contemporâneo.
Com distribuição da A2 Filmes e coprodução de Cleo Pires (Ayrosa Produções), UNO Filmes e La Duka Produções, “O Velho Fusca” consolida a parceria entre a A2 Filmes, os produtores Alexandre Freire, Ronaldo Bettini Junior e Almir Santos e a Ruschel Studios, que já rendeu títulos como "Hidden Memories" e “Secrets”.
FICHA TÉCNICA
Direção: Emiliano Ruschel
Roteiro: Bill Labonia
Produção: Ruschel Studios
Produtores: Emiliano Ruschel, Ronaldo Bettini Junior, Alexandre Freire, Almir Santos, Jo Rauen
Coprodução: Ayrosa Produções, UNO Filmes, La Duka Produções, Flores & Filmes, Fábrica Sonora
Coprodutores: Cleo Pires, Diego Timbó, Flávia Goulart, Beatriz Rhaddour, Victor Pinto
Produção Associada: Herika Sodré, Giovanna Chaves, Edinea Tomaz, Bruna Ciocca e Patrick Fornari, Sonora Digital
Produtor Executivo: Leilah Maria, Felipe Flores, Mauren Pessôa de Mello, Fabiana Oliveira Amorim, Nanashara Piazentin, Marcelo Zambelli
Elenco: Caio Manhente, Tonico Pereira, Cleo Pires, Danton Mello, Giovanna Chaves, Isaías Silva, Christian Malheiros, Yuri Marçal, Rodrigo Ternevoy, Leandro Lucca, Priscila Vaz, Emiliano Ruschel
Participações Especiais: Herika Sodré, Erica Paes, King Saints, Nina Sofia, Carla Cristina Cardoso, Gabriel Rocha, Victor Pinto
Direção de Fotografia: Ricardo Rheingantz
Direção de Arte: Eliane Heringer
Produtor de Elenco: Jacqueline Oliveira
Montagem: Fábio Lobanowsky, edt.
Direção de Trilha Sonora: Diego Timbó
Som Direto: Juan Quintans
Produção: Ruschel Studios
Distribuição: A2 Filmes
País de Origem: Brasil
Ano de Produção: 2026
Gênero: Comédia, Família
Duração: 97 minutos
Classificação Indicativa: 12 anos








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