Um homem atravessa a estrada enquanto outro permanece agarrado ao para brisa do caminhão, sustentando uma imagem absurda que imediatamente transforma o desconforto em linguagem política.
A partir desse encontro atravessado por ressentimento, ruído e desgaste emocional, Eu Não Te Ouço mergulha num Brasil ainda intoxicado pela incapacidade de diálogo, utilizando uma situação inspirada em um episódio real que virou símbolo recente do radicalismo nacional.
O começo funciona justamente porque entende o peso dessa estranheza sem transformar seus personagens em simples arquétipos ideológicos.
Os diálogos carregam irritação, cansaço e pequenas tentativas frustradas de aproximação, reproduzindo uma convivência contaminada pela necessidade constante de vencer discussões em vez de ouvir o outro.
Há um humor seco surgindo no meio dessas trocas, criando pausas desconfortáveis que impedem a narrativa de afundar apenas no discurso político e mantêm certo frescor dentro da repetição emocional que acompanha a viagem.
Os momentos mais interessantes aparecem quando o roteiro abandona o impulso de defender posições e passa a observar as frustrações pessoais escondidas atrás de cada fala, permitindo que o desgaste coletivo do país apareça em detalhes pequenos, silenciosos e muito reconhecíveis.
Mesmo assim, a sensação é de uma ideia que encontra rapidamente seus próprios limites. A narrativa começa a girar em torno das mesmas provocações sem conseguir expandir de fato as questões levantadas no início, e o percurso perde força justamente quando deveria aprofundar as contradições daqueles personagens.
Ainda que relativamente curto, o filme parece esticar uma dinâmica que teria mais impacto em formato menor, sustentando seu tempo principalmente pela naturalidade dos diálogos e pela força simbólica da situação central.
O retrato político continua interessante porque captura um sentimento específico de esgotamento coletivo que permanece ecoando no país, mas a condução dramática nunca encontra um caminho que transforme essa observação em algo narrativamente mais sólido.
Eu Não Te Ouço permanece preso dentro da própria repetição, funcionando mais pela potência da imagem inicial e pela identificação imediata com aquele ruído social constante do que pela construção de uma trajetória realmente envolvente¨.
Após ser premiado no Festival do Rio e selecionado para a Mostra de São Paulo, Eu Não Te Ouço, novo filme de Caco Ciocler, estreia em 14 de maio nos cinemas.
Protagonizado por Márcio Vito, que conquistou o Troféu Redentor de Melhor Ator na Mostra Novos Rumos do festival carioca, o longa marca o terceiro filme da série política dirigida e idealizada por Ciocler, que também assina a produção ao lado de Diane Maia e André Novis.
Eu Não Te Ouço chega aos cinemas com distribuição da AMAIA Distribuidora, inicialmente em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.
Inspirada em acontecimentos reais, a trama traz ao cinema o famoso meme do patriota do caminhão que, ao tentar impedir que um caminhoneiro atravesse um protesto de apoiadores de Jair Bolsonaro após a derrota nas eleições de 2022, se prende à frente do veículo e acaba sendo arrastado por quilômetros. Além de interpretar ambos os personagens, Márcio Vito também desenvolveu o roteiro ao lado de Ciocler e da atriz e dramaturga Isabel Teixeira.
Para finalizar sua trilogia política, em Eu Não Te Ouço o diretor aposta em um road movie que lança um olhar bem-humorado às dinâmicas que tomaram conta do debate público brasileiro nos últimos anos, a fim de investigar a impossibilidade de diálogo no Brasil atual.
SINOPSE
Um encontro improvável entre dois brasileiros se transforma em um road movie inusitado. Uma viagem ficcionalizada a partir de um evento factual que se tornou um famoso meme e tomou as redes sociais brasileiras. Humor e tensão expõem um país marcado por desigualdades e estruturas educacionais frágeis, onde os personagens repetem ideologias que mal compreendem, revelando a impossibilidade do diálogo.
O DIRETOR
Caco Ciocler estreou na direção com o curta Trópico de Câncer, vencedor de Melhor Filme no Festival do Minuto. Dirigiu quatro longas premiados, entre eles Esse Viver Ninguém Me Tira (Melhor Documentário no Festival de Cinema Brasileiro de Los Angeles), Partida (Melhor Filme em Málaga e no Festival de Documentários do Porto) e O Melhor Lugar do Mundo é Agora (Prêmio do Público na 45ª Mostra de São Paulo).
Eu Não Te Ouço fecha sua trilogia política iniciada em 2018 com Partida. Na ficção, dirigiu quatro episódios em duas temporadas da série Unidade Básica, que também protagoniza, disponível na Globoplay.
ELENCO
Márcio Vito …………… o caminhoneiro/o patriota do caminhão
Caco Ciocler …………… entrevistador (voz)
FICHA TÉCNICA
Produzido por AMAIA em coprodução com UNO FILMES, 555 STUDIOS e SCHIFIGUER
Direção: Caco Ciocler
Roteiro: Caco Ciocler, Isabel Teixeira e Márcio Vito
Produção: Diane Maia, André Novis e Caco Ciocler
Produção Associada: Fernando Palermo, Carlos Vecchi e Eduardo Nasser
Produção Executiva: Carlos Eduardo Valinoti
Direção de Fotografia: André Faccioli
Direção de Arte: Marcelo Escañuela
Montagem: Caroline Leone
Figurino: Mel Akerman
Maquiagem e Cabelo: Fernando Andrade (Feco) e Ravena Corre
Direção de Produção: Paula Madureira
Som Direto: Ubiratan Guidio
Mixagem: Toco Cerqueira
Desenho de Som: Mariano Alvarez
Trilha Original: Arthur De Faria, Mauricio Pereira e Felipe Pipo






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