Crítica by Raphael Ritchie: ¨Passar alguns dias dentro de uma casa que já não lhe pertence mais transforma cada gesto em algo provisório.
A mãe no centro dessa história tenta sustentar uma aparência de tranquilidade para os filhos enquanto ocupa silenciosamente o espaço dos antigos sogros na Riviera Francesa, e é justamente dessa permanência desconfortável que nasce a força do filme.
A casa deixa de funcionar apenas como cenário e passa a carregar um peso emocional constante, lembrando o tempo inteiro que aquelas férias existem sobre um terreno frágil, sustentado por silêncio, constrangimento e uma tentativa desesperada de preservar alguma normalidade.
A direção prefere observar os personagens à distância, permitindo que pequenas mudanças de comportamento revelem o desgaste daquela família sem transformar cada conflito em uma grande explosão dramática.
O desconforto aparece nos detalhes, na forma cuidadosa com que a protagonista tenta ocupar aquele espaço sem realmente pertencer a ele, enquanto os filhos atravessam tudo em silêncio, absorvendo tensões que ainda parecem grandes demais para serem totalmente compreendidas.
A Riviera Francesa surge iluminada, bonita e confortável, mas existe uma sensação amarga atravessando cada ambiente, reforçando o contraste entre privilégio e vazio emocional.
A discussão sobre classe social também ganha força justamente nessa tentativa constante de manutenção de status.
Permanecer naquela casa significa preservar uma imagem, continuar frequentando espaços que já parecem distantes daquela realidade atual, e o filme entende muito bem o peso emocional escondido dentro dessa insistência.
O problema é que, em determinados momentos, a narrativa parece excessivamente contida, mantendo os personagens tão observados que acaba criando uma certa distância emocional.
Falta profundidade em algumas relações para que o impacto desse desgaste silencioso alcance algo mais marcante.
Ainda assim, o incômodo nunca desaparece completamente.
Os melhores momentos surgem dessa atmosfera melancólica e desconfortável, acompanhando personagens presos entre a aparência de estabilidade e a percepção inevitável de que certas portas já se fecharam faz tempo¨.
Com estreia marcada para 21 de maio nos cinemas brasileiros, SEIS DIAS NAQUELA PRIMAVERA, novo longa do aclamado cineasta Joachim Lafosse, convida o público a mergulhar em uma narrativa profundamente pessoal, marcada por ternura, tensão e um olhar sensível sobre desigualdade e pertencimento. Vencedor dos prêmios de Melhor Diretor e Melhor Roteiro no Festival de San Sebastián, o filme reafirma Lafosse como um dos autores mais consistentes e emocionantes do cinema europeu contemporâneo.
Inspirado em memórias da infância do próprio diretor, o longa acompanha Sana, uma mãe que decide levar seus filhos gêmeos para a praia durante as férias da primavera.
Após alguns imprevistos, os três acabam se hospedando secretamente na casa de luxo dos antigos sogros, na Riviera Francesa.
O que deveria ser uma escapada tranquila transforma-se em seis dias intensos, marcados pela descoberta, pela ansiedade e pelo fim da inocência.
Lafosse constrói um filme de atmosfera luminosa, mas atravessado por tensões sociais e afetivas. A oposição entre a precariedade da mãe e o poder financeiro do pai — tema recorrente na obra do diretor — ganha aqui uma dimensão íntima e política, revelada pelo olhar das crianças.
A câmera, sempre atenta aos gestos e silêncios, captura a doçura desses dias ao sol, mas também o medo constante de serem descobertos, criando um retrato delicado e profundamente humano.
Com Eye Haïdara no papel de Sana e um elenco que inclui Emmanuelle Devos e Damien Bonnard, o filme destaca-se pela força das interpretações e pela sensibilidade da mise-en-scène. A fotografia de Jean-François Hensgens e a montagem precisa de Marie-Hélène Dozo reforçam o tom íntimo e contemplativo da narrativa.
SEIS DIAS NAQUELA PRIMAVERA é, ao mesmo tempo, memória, confissão e reflexão social — um filme que emociona pela simplicidade e pela verdade. Lafosse revisita sua própria história para falar de desigualdade, família e pertencimento, mas também de ternura, alegria e da beleza que persiste mesmo em tempos difíceis.
Sinopse
Nas férias da primavera, Sana quer levar seus filhos gêmeos para a praia. Depois de alguns imprevistos, decidem se hospedar, sem contar a ninguém, na casa em um condomínio de luxo na Riviera Francesa de propriedade dos seus antigos sogros. Seis dias ao sol que marcam o fim da inocência.
Ficha técnica
Roteiro: Joachim Lafosse
Coroteiristas: Chloé Duponchelle e Paul Ismaël
Jean-François Hensgens A.F.C. - S.B.C.
Fotografia: Montagem: Marie-Hélène Dozo
Som: Alain Goniva, François Dumont, Thomas Gauder
Produtor: Anton Iffland-Stettner, Eva Kuperman, Régine Vial, Alexis Dantec, Jani Thiltges, Hans Everaert
Elenco: Eye Haïdara, Jules Waringo, Leonis Pinero Müller, Teoudor Pinero Müller, Emmanuelle Devos, Damien Bonnard
Título original: Six Jours, ce printemps-lá
Classificação Indicativa – 12 anos







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