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COLETIVA DE IMPRENSA: HERANÇA DE NARCISA

By Raphael Ritchie:  “Herança de Narcisa” aposta no horror como ferramenta para discutir maternidade e heranças emocionais, dizem realizadores.





Direção: Clarissa Appelt e Daniel Dias | Roteiro: Clarissa Appelt e Daniel Dias | Elenco: Paolla Oliveira, Rosamaria Murtinho e Elvira Helena

Embora utilize elementos sobrenaturais e dialogue com o cinema de horror, A Herança de Narcisa quer provocar no público sensações que vão muito além do medo. Durante a coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira (30), a diretora e roteirista Clarissa Appelt, o diretor Daniel Dias e a atriz Paolla Oliveira falaram sobre a construção do longa e reforçaram que o filme nasceu da vontade de explorar relações familiares, especialmente entre mães e filhas, utilizando o terror como uma ferramenta para discutir traumas, ancestralidade e emoções que atravessam gerações.




Ainda antes da exibição, Clarissa resumiu aquilo que considera o verdadeiro propósito da obra. “Tudo o que eu quero com esse filme é que as pessoas se emocionem, sintam e entendam melhor suas mães”, afirmou ao público presente, deixando claro que o sobrenatural funciona como um caminho para abordar conflitos profundamente humanos.

A ideia começou a tomar forma durante a pandemia, quando a cineasta precisou voltar ao Brasil após morar em Los Angeles e passou um período vivendo novamente com os pais. Foi nesse contexto que surgiu a imagem que daria origem ao roteiro.



“Comecei a entrar em contato com alguns dramas familiares e falei para o Daniel: vou escrever uma história de uma filha que é possuída pela própria mãe”, contou. O primeiro tratamento do roteiro foi escrito em apenas quinze dias e, ao longo do desenvolvimento, ganhou novos contornos até encontrar sua identidade definitiva.

Essa transformação também foi percebida pela distribuidora Olhar Filmes, que acompanhou o projeto desde seus primeiros estágios. A diretora-geral Paula Gomes lembrou que o longa era inicialmente apresentado como um “terror tropical”, mas que a própria evolução da história levou a equipe a redefinir a proposta.




“A gente mudou o posicionamento do filme para um drama sobrenatural, porque acho que isso traduz muito melhor o que ele realmente é”, explicou.

A definição acompanha a própria visão de Clarissa sobre o gênero. Para a diretora, o terror é capaz de acessar sentimentos que dificilmente seriam alcançados por outros formatos narrativos.

“O que eu gosto no terror é a capacidade que ele tem de mexer com o nosso inconsciente, com o nosso emocional. Acho que é um dos gêneros mais viscerais que existem.”




Foi dessa percepção que nasceu um conceito que passou a acompanhar a divulgação do longa: a “terroterapia”. Segundo Clarissa, a expressão surgiu quase como uma brincadeira entre a equipe, mas acabou resumindo perfeitamente aquilo que buscavam construir.

“A gente começou a desenvolver essa ideia de terroterapia. O terror como uma ferramenta para ajudar as pessoas a entenderem melhor suas mães, seus ancestrais, seus próprios problemas. A gente faz cinema para transformar as pessoas, e acho que o terror tem uma potência muito forte para isso.”

O caráter pessoal da história também apareceu diversas vezes durante a conversa. A diretora revelou que a primeira exibição para sua mãe, durante o Festival do Rio, foi especialmente marcante e transformou o filme em algo muito maior do que um projeto profissional.




“Às vezes eu paro e penso na minha avó, penso na minha mãe, penso na ancestralidade da minha família. Esse filme virou um presente para elas e para todas as mulheres que se identificam nessa história.”

Quem também enxergou rapidamente o potencial da obra foi Paolla Oliveira, que faz sua estreia em um filme de terror justamente vivendo duas personagens fundamentais para a narrativa: Ana e Narcisa.

A atriz admitiu que, num primeiro momento, estranhou o convite.




“Quando soube que era um filme de terror, pensei: será que vou dar conta?”

Logo percebeu, porém, que o desafio estava muito menos nos elementos sobrenaturais do que na construção emocional das personagens.

“Eu faço a Ana e faço a Narcisa. São dois tons completamente diferentes. O próprio terror me ajudou a construir essa mulher, entender como colocar essa intensidade dentro da história.”

Paolla contou ainda que optou por realizar praticamente todas as cenas físicas sem dublês para encontrar a corporeidade das personagens.

“Eu sou muito física. Construir essas personagens no corpo também foi fundamental.”




Entre os momentos mais marcantes das filmagens, destacou as cenas ao lado de Rosamaria Murtinho, descritas por ela como uma experiência profundamente emocionante.

“Olhar para ela naquela cena foi muito especial. Foi uma mulher forte, firme, impecável durante toda a diária. Não foi desafiador. Foi um privilégio estar com ela.”

Durante toda a coletiva, ficou evidente que A Herança de Narcisa procura construir sua tensão muito mais através do silêncio do que de sustos tradicionais. Daniel Dias explicou que boa parte do trabalho de roteiro consistiu justamente em retirar diálogos para que as emoções aparecessem através da atuação.




“No primeiro tratamento existe muito subtexto nas falas. Depois fomos enxugando tudo. Descobrimos que muita coisa não precisava ser dita, precisava ser entendida no corpo, no olhar, na memória da cena.”

Paolla acredita que essa escolha aproxima o filme da própria experiência humana.

“A Ana vai para aquela casa resolver uma questão absolutamente prática, uma herança. Mas, no final das contas, a herança não é sobre isso. A herança é sentimental.”

Segundo a atriz, essa opção narrativa também dialoga diretamente com o tema central do longa.

“Emoção precisa de silêncio, de subtexto e de coisas que não são ditas.”




A discussão também passou pelos desafios de fazer cinema de gênero no Brasil. Clarissa lembrou que produções nacionais costumam trabalhar com orçamentos muito menores do que os grandes títulos internacionais de horror, mas acredita que isso não impede a criação de experiências impactantes.

“O terror não precisa ser pirotécnico.”

Para ela, atmosfera, construção dramática e envolvimento emocional podem ser muito mais eficientes do que grandes efeitos visuais.

Além da questão financeira, os realizadores também comentaram a resistência que parte do público ainda demonstra em relação ao terror brasileiro. Daniel resumiu essa discussão em uma frase que rapidamente arrancou concordância da plateia.

“O nacional não é um gênero.”




Segundo ele, o cinema brasileiro é muito mais diverso do que costuma parecer e ainda precisa romper a ideia de que todas as produções nacionais seguem o mesmo padrão estético ou narrativo.

Essa proposta diferente tem encontrado espaço também em festivais internacionais. Depois de conquistar o Prêmio do Júri Popular no Festival do Rio, A Herança de Narcisa passou por mostras de cinema de arte e festivais especializados em horror, despertando reações curiosas do público estrangeiro.

Clarissa contou que muitos espectadores sequer perceberam que Ana e Narcisa eram interpretadas pela mesma atriz.

“Eles elogiavam muito as duas personagens sem saber que era a mesma pessoa fazendo as duas.”




Mais do que falar sobre medo, porém, a equipe acredita que o longa convida o espectador a refletir sobre aquilo que herdamos emocionalmente das gerações anteriores. Questionada sobre esse aspecto, Paolla afirmou que o filme propõe uma pergunta simples, mas profundamente transformadora.

“O que é dela? O que é meu? Que voz é realmente minha?”

Para a atriz, é justamente essa reflexão que permanece quando a sessão termina.

“Quem gostou do terror vai gostar do terror. Mas acho que muita gente vai sair pensando: o que eu preciso deixar para trás? Será que está na hora de resolver alguma coisa antes que seja tarde? Acho que a Ana e a Narcisa acabam fazendo a gente seguir mais leve pela vida.”

Com estreia marcada para 9 de julho, A Herança de Narcisa chega aos cinemas apostando em uma abordagem pouco comum dentro do horror nacional. Em vez de transformar o medo em ponto de chegada, Clarissa Appelt e Daniel Dias utilizam o gênero como porta de entrada para discutir maternidade, memória e ancestralidade. Como resumiu a diretora ao abrir a coletiva, o objetivo nunca foi apenas assustar.




“Tudo o que eu quero com esse filme é que as pessoas se emocionem.”

A Olhar Filmes divulgou a data da estreia oficial de “Herança de Narcisa” nos cinemas. Com direção de Clarissa Appelt e Daniel Dias, o longa-metragem traz Paolla Oliveira em um drama de terror que aborda uma herança emocional com um suspense crescente do início ao fim.

Ana, personagem de Paolla, retorna ao seu lar de infância, no Rio de Janeiro, após a morte de sua mãe, a ex-vedete Narcisa. Lá, ela encontra uma casa imersa em mistério, angústia familiar e segredos que se recusam a ficar enterrados. À medida que começa a revirar o imóvel junto com seu irmão Diego (Pedro Henrique Müller), Ana navega por um mar de antigos traumas, mistérios e medos. Para sobreviver, ela precisará confrontar as mágoas e as memórias de uma relação tóxica mal resolvida.

“A herança que ninguém pediu, mas que todo mundo carrega. Um filme que tem o poder de tocar qualquer pessoa que já teve uma relação difícil com a mãe. É sobre uma herança emocional não resolvida, uma história de família que nunca foi dita em voz alta, um nó eterno que precisa estar sempre sendo ressignificado. O que eu herdei dela sem perceber?”, comentam os cineastas, que também assinam o roteiro.




A produção foi exibida em alguns dos principais festivais do Brasil, como o Festival do Rio, levando o Prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular, a 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, no Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, entre outros. Internacionalmente, foi exibido no Cinequest Filme & Creativity Festival, na Califórnia, e mais recentemente no Festival Internacional de Cinema de Shanghai, dentro da Mostra Focus Brasil.

Nos cinemas brasileiros, “Herança de Narcisa” estreia no dia 9 de julho.

“É um filme diferente da clássica produção de possessão, em que não falamos sobre a possessão pelo mal ou pelo diabo, mas sobre a possessão pelas questões não resolvidas do relacionamento entre mãe e filha. Para quebrar o ciclo, a única maneira é um exorcismo mútuo.

No sincretismo religioso brasileiro, acredita-se que somente reconhecendo as projeções e questões um do outro, fantasmas e hospedeiros podem se liberar”, explica Clarissa Appelt. “É uma produção sobre ancestralidade feminina, que fiz em homenagem à minha mãe”, completa a cineasta.





Ficha Técnica:
“Herança de Narcisa” (Dir. Clarissa Appelt e Daniel Dias / 85’ / Ficção / Brasil / 2025)

Elenco: Paolla Oliveira, Rosamaria Murtinho, Pedro Henrique Müller, Elvira Helena

Roteiro: Clarissa Appelt e Daniel Dias

Direção de Fotografia: Zhai Sichen

Montagem: Daniel Dias

Direção de Arte: Fernanda Teixeira

Figurino: Roberta Pupo

Caracterização: Cleber de Oliveira

Direção de Som: João Henrique Costa

Edição de Som: Bernardo Uzeda

Trilha Sonora: Marcelo Conti

Produção: Camisa Preta Filmes

Coprodução: Urca Filmes e Telecine

Distribuição: Olhar Filmes

Produtores: Amanda Amorim, Leonardo Edde, Eduardo Albergaria

Classificação indicativa: 14 anos


Sobre os diretores: Clarissa Appelt e Daniel Dias têm pós-graduação (MFA) em roteiro nos EUA com bolsa Fulbright/Capes e são fundadores do Programa New Voices, voltado a vozes sub-representadas e patrocinado pela Fulbright, Embaixada Americana, SPcine e Projeto Paradiso. Clarissa dirigiu o longa “A Casa de Cecília” (2015) e Daniel é roteirista de “Nosso Sonho” (2023), “Herança de Narcisa” é o primeiro longa-metragem da dupla.

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