Crítica by Raphael Ritchie: ¨Em uma Paris tomada pelo brilho dos palcos e pela curiosidade insaciável da imprensa, uma atriz transforma a própria vida em espetáculo enquanto desafia convenções sociais, alimenta escândalos e faz da fama uma ferramenta tão poderosa quanto seu talento.
Essa escolha funciona porque evita transformar Sarah Bernhardt em uma figura distante ou reverenciada apenas por sua importância histórica. Ela aparece como alguém fascinante justamente por suas contradições, consciente do próprio talento, vaidosa, provocadora e incapaz de aceitar os limites impostos às mulheres de sua época.
Sua relação com a imprensa, com os admiradores e com a construção da própria imagem impressiona por antecipar mecanismos de celebridade que hoje parecem inseparáveis das redes sociais, lembrando que muito antes da internet já existia quem soubesse transformar cada aparição pública em um acontecimento.
Ao mesmo tempo, A Divina Sarah Bernhardt dedica atenção aos conflitos mais íntimos dessa personalidade exuberante, refletindo sobre liberdade, envelhecimento, criação artística e o preço de viver segundo as próprias regras.
A direção recria a Belle Époque com elegância por meio de figurinos, cenários e uma fotografia que valoriza o ambiente teatral sem transformar a reconstituição histórica em mero exercício estético. Tudo existe para reforçar a presença magnética da protagonista, sustentada por uma atuação que equilibra carisma, vulnerabilidade e uma confiança quase inabalável.
Mais do que contar a história de uma artista extraordinária, o filme observa como determinadas figuras acabam moldando a cultura de seu tempo sem abrir mão de suas imperfeições. Ao preservar essas ambiguidades, faz de Sarah Bernhardt alguém muito mais interessante do que qualquer versão idealizada permitiria.
É um retrato elegante, envolvente e consciente de que o verdadeiro legado de uma personalidade não nasce apenas dos aplausos, mas da coragem de ocupar um espaço que parecia impossível¨.
Dirigido por Guillaume Nicloux e estrelado por Sandrine Kiberlain, “A Divina Sarah Bernhardt” chega aos cinemas brasileiros no dia 16 de julho com distribuição da Imovision. Partindo de uma abordagem que une drama histórico e romance, o filme mergulha no universo extravagante da lendária atriz francesa, uma das mulheres mais famosas do mundo no final do século 19 e começo do século 20, sendo considerada a "primeira celebridade global”. Ambientada na Paris de 1896, a trama acompanha Sarah Bernhardt no auge de sua glória como atriz e uma mulher à frente de seu tempo, sempre desafiando as convenções sociais.
Vencedora do César de Melhor Atriz por "Uma Juíza Sem Juízo”, Sandrine Kiberlain dá vida à personalidade irreverente de Bernhardt em um filme biográfico que retrata a incansável dedicação ao teatro da figura que ficou conhecida como "A Divina", bem como os sacrifícios corporais e emocionais que moldaram sua trajetória nos palcos.
O filme passa por episódios marcantes na vida da atriz, dentre eles a grande homenagem que recebeu em Paris, em 1896, e a amputação de sua perna direita, em 1915 — consequência da grave lesão que sofreu no joelho durante a apresentação final da ópera Tosca, no Rio de Janeiro, em 1905.
Na cena em que a protagonista saltava de um parapeito para a morte, falhas no posicionamento dos colchonetes de amortecimento causaram o acidente. Inclusive, a atriz esteve no Brasil em três ocasiões: a primeira ainda durante o reinado de D. Pedro II; depois, para promover uma massiva internacionalização das produções francesas. E, por último, sua última e mais dramática turnê.
O longa explora ainda o relacionamento amoroso de Bernhardt com o ator Lucien Guitry, interpretado por Laurent Lafitte — ator que ganhou notoriedade internacional por seu trabalho em “Elle”, de Paul Verhoeven —, além de sua visão progressista sobre o mundo e o encontro com diversas figuras importantes da época, como Alexandre Dumas, Victor Hugo, Sigmund Freud e Émile Zola.
Adepta do amor livre, Sarah Bernhardt se entregou plenamente à vida e aos palcos, guiada pela convicção de que a existência só valia a pena se vivida em sua máxima intensidade; do contrário, seria o mesmo que estar morta.



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