Crítica by Raphael Ritchie: ¨Existe uma diferença enorme entre olhar para a História e enxergá-la pelos olhos de quem estava dentro dela. Aqui, as imagens não aparecem como um complemento para o discurso de especialistas ou como uma lembrança distante organizada décadas depois.
Elas foram registradas pelos próprios exilados brasileiros durante a Conferência Internacional pela Anistia, em Roma, e carregam uma espontaneidade que nenhuma reconstituição seria capaz de reproduzir. Os enquadramentos são imperfeitos, as falas surgem atravessadas pelo momento, e é justamente essa falta de acabamento que lhes dá tanto valor.
O acervo, porém, não se sustenta apenas pela importância histórica. O trabalho de montagem é o que permite que essas imagens deixem de existir apenas como memória preservada e passem a dialogar com o presente. Quase cinquenta anos depois, a palavra “anistia” chega ao espectador cercada por um significado muito diferente daquele que mobilizava aquelas pessoas em 1979.
O filme não precisa estabelecer essa comparação de maneira direta porque ela acontece naturalmente. Basta acompanhar aqueles rostos discutindo o futuro do país para perceber como uma mesma palavra pode atravessar décadas carregando disputas completamente distintas.
Essa escolha também impede que o documentário se transforme em uma simples coleção de arquivos restaurados. Existe uma preocupação em construir uma experiência que preserve o contexto daqueles registros sem interromper constantemente seu fluxo para explicar cada acontecimento.
Quando confia nas imagens, nos discursos e nos silêncios, o resultado é muito mais interessante do que quando a condução se torna excessivamente organizada e o ritmo perde parte da sua intensidade.
Anistia 79 desperta menos interesse por apresentar novas informações do que pela maneira como reorganiza um material conhecido. Há algo muito potente em observar pessoas registrando o próprio tempo sem imaginar que aquelas imagens ainda estariam sendo revisitadas quase meio século depois.
Ao mesmo tempo, nem sempre a construção narrativa acompanha o peso desse material, e alguns trechos prolongam uma experiência que teria mais impacto se fosse um pouco mais contida.
Seu maior mérito acaba sendo lembrar que preservar a memória também passa por preservar quem teve a chance de registrá-la. O documento permanece. O cinema, em alguns momentos, oscila. E é justamente nessa distância entre as duas coisas que o filme encontra seus limites¨.
A Embaúba Filmes distribui ANISTIA 79, novo longa-metragem de Anita Leandro que resgata imagens inéditas da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979.
Com estreia nos cinemas marcada para 20 de agosto, o documentário terá duas pré-estreias especiais em importantes festivais dedicados aos direitos humanos e ao cinema documental.
Em São Paulo, será exibido como filme de abertura do DH Fest – Festival de Cultura e Direitos Humanos, no dia 29 de julho, às 20h, no Cine Reserva Cultural SP, com entrada gratuita. Já no Rio de Janeiro, encerrará a programação do FID:Rio – Festival Internacional de Cinema de Não-Ficção do Rio de Janeiro, em sessão no dia 1º de agosto, às 18h, na Cinemateca do MAM, também com ingressos gratuitos.
Vencedor dos prêmios de Melhor Filme da Mostra Olhos Livres e Prêmio do Júri Popular na Mostra de Cinema de Tiradentes, além do Prêmio de Apoio à Distribuição (Distribution Support Award) no FIDMarseille, ANISTIA 79 parte de um conjunto de imagens registradas por exilados brasileiros durante a Conferência Internacional pela Anistia e esquecidas por quase cinco décadas. Recuperado por Anita Leandro, esse material estabelece um diálogo entre passado e presente ao registrar o reencontro de participantes da conferência com essas imagens históricas.
"Não se trata de um filme temático sobre anistia, mas de um filme sobre a emoção de pessoas que viveram esse processo diante das imagens onde elas aparecem", afirma a diretora.
ANISTIA 79 chega aos cinemas no mês em que a Lei da Anistia completa 47 anos, reacendendo um debate que permanece urgente sobre memória, justiça e democracia no Brasil contemporâneo.
COM A PARTICIPAÇÃO DE
Luiz Eduardo Greenhalgh,
Heloísa Greco,
Hamilton Lopes dos Santos,
Dirceu Greco Monteiro,
Branca Moreira Alves,
José Pedro da Silva,
Marijane Lisboa,
Jean Marc von der Weid,
Denise Leal,
Mariana Conceição Leal,
Denise Crispim.
FICHA TÉCNICA
Direção | Anita Leandro
Roteiro | Anita Leandro e Alice de Andrade
Produção | Maria Flor Brazil e Alice de Andrade
Fotografia | Bené Machado
Montagem | Anita Leandro e Isabel de Castro
Som | Glaydson Mendes
Produção Executiva | Maria Flor Brazil
Gênero | documentário
Duração | 105 minutos
País e ano de produção | Brasil, 2026
Empresas Produtoras | Montanha Russa Cinematográfica e Banda Filmes
Distribuição | Embaúba Filmes







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